sábado, agosto 16, 2008

Brainstorm

Brainstorm

Engraçado ter trinta anos. Parece, à primeira vista, algo distante aos mais jovens e nostálgico aos mais velhos. Só o que posso dizer é: procuro viver os trinta... apesar de não acreditar que cheguei à alcunha de balzaquiana, se olho para trás, a impressão é de que vivi mesmo três décadas. Quando eu tinha 12 anos, pensava que com trinta seria uma mulher feita, com emprego estável, carro, casa, família. Uma imagem de sucesso profissional e afetivo, claro. Estranho demais ver que nada mudou muito nos últimos sete anos. Parece que parei nos vinte e três. Acabo não acreditando...

Isso na verdade não é ruim. E nem me refiro à aparência; não tenho medo de envelhecer, procuro me dar bem com o espelho... que as rugas cheguem em sua hora. A questão central de minha descrença é justamente minha situação atual: vivo correndo de lá pra cá, como no começo da carreira; não consegui juntar uma grana bacana e comprar meu veículo próprio (quanto mais a casa) e não tenho cara de mulher feita! Me sinto frustrada, de certa forma, porque tenho medo de que a menininha ruiva que mora dentro de mim não esteja satisfeita com o que encontrou ao bater a marca dos trinta... eu, pessoalmente, amo muito essa menina-mulher que me tornei.

Não sinto falta de nada. Tenho minhas experiências passadas, ricas e intensas... tenho uma personalidade, uma família que me ama, uma profissão que já tentei (pelo dinheiro) trocar, mas que hoje é fundamental para manter meu equilíbrio - se eu deixasse de dar aulas, acho que enlouqueceria. Não reclamo de nada mesmo. Se a felicidade pode ser definida, acredito que deva ser algo parecido com isso que descrevi. Você se sentir confortável com o momento de sua vida, com as pessoas que participam de sua vida, com suas experiências de vida, com seu estilo de vida. Minha vida é uma boa vida.

Problemas eu tenho sim... às vezes até caio em tentação e penso em desistir de tudo. Mas, a esta altura, algo aprendi: tudo se resolve. Tudo, menos a morte. Pode ser rápido, pode demorar anos, mas tudo se resolve... o importante é manter seu equilíbrio e confiar, acreditar mesmo. Coisas que aconteceram há oito anos, por exemplo, me pareciam o fim do mundo. Outros problemas que rolaram há três me tornaram uma pessoa triste, depre mesmo. Hoje aprendi que devemos nos desapegar dos problemas. Tem gente que gosta de bater a cabeça na parede. Eu não. Nunca mais.

Acabei caindo na auto-ajuda. Desculpem-me!! Não era bem essa a minha intenção. Mas como cheguei até aqui e não estou com coragem de apagar tudo, fica o texto. Uma verdadeira brainstorm...

sábado, abril 12, 2008

Do Tempo da Inocência

Do tempo da inocência

Berê era só alegria por fora, mas por dentro estava com o coração na mão. Tentava afastar os pensamentos ruins com um sorriso bem largo, de orelha a orelha. Estava numa das festas anuais realizadas pela equipe do trabalho, e por mais que quisesse, não conseguia se desprender de certas lembranças que a atormentavam como latejantes dores de cabeça. Lá pelas tantas, resolveu que iria tentar, pelo menos. Abriu então uma latinha de cerveja. Depois outra. Já se sentia melhor.

A partir daí Berê já não sentia mais a dor das lembranças, muito pelo contrário. Agora era ela mesma, leve, sem qualquer peso a arrastando para o fundo de seu oceano de culpas. Sentou-se numa rodinha de saudosistas da década de setenta, trocou idéias a respeito de música brasileira com uma colega de trabalho, arriscou alguns passos na pista de dança. O melhor da noite foi mesmo a hora de ir embora. Mas antes disso ainda riu muito, e também fez outros rirem. Pensou que, talvez, ela mesma estivesse complicando sua vida... era muito querida por todos e não havia motivos para tanto aperto, tanta aflição, tanta melancolia.

Berê viraria uma abóbora às nove. Precisava sair correndo, teria ainda que tomar dois ônibus para chegar à sua casa e já era hora. Mas estava com muito medo da solidão, das ruas vazias, dos mal encarados. Decidiu perguntar a uma de suas amigas, Lah, se ela poderia acompanhá-la até o ponto; J.J., ouvindo o pedido de Berê, com um grande abraço confirmou que também iria. Saíam então os três a caminho, só que mais gente se juntou à romaria:Pat, Elvis e Érico. Agora estavam em seis, e Berê se sentiu, pela primeira vez em anos, alguém especial. Não somente pelo fato de estar acompanhada, mas por ser amiga de pessoas que cultivavam a inocência e a amizade verdadeira, que é aquela que dura a vida toda. Ela sabia disso, sentia isso. E pedira por isso a vida toda.

Ao chegar em casa relembrou cada pedacinho de tempo daquela noite, e quem a tivesse visto naquele momento não entenderia o porquê de seu sorriso tão insistente. Só ela mesma, que percebera o quão simples é a felicidade.

segunda-feira, março 31, 2008

As Flores do Caminho

As flores do caminho

Rezava, chorava, se atormentava. Heloísa começava a perder a noção de tempo e espaço. Parecia que nada fazia sentido, que o sol brilhante e quente já não a aquecia ou a iluminava como antes. Que o mistério da lua, antes tão instigante para ela, já não existia mais. Que as flores coloridas mereciam morrer secas e que o perfume delas se esvaísse pelo ar, perdendo-se nas nuvens negras de fumaça. Que motivos teria Heloísa para se tornar tão triste? Se perguntássemos a ela, nem a própria conseguiria responder. Acúmulo de tristezas, talvez.

Houve um dia em que suas esperanças escaparam da caixa. Tudo o que ela temia acontecer acabou acontecendo. Perdeu sua vontade. Perdeu as forças. Viu-se perdida num mundo escuro, tão escuro quanto um filme de Tim Burton. Estava sim sozinha, mas isso não fazia diferença, o pior de tudo era sentir-se perdida. Não se reconhecia mais, nem aos outros. Esse poderia ser o fim para Heloísa. Mas não foi, e graças às flores de seu lindo jardim.

Havia plantado algumas belas flores num jardim que antes era abandonado. Cuidava delas já fazia tempo. Pareciam ter personalidade, as danadas. Quando Heloísa estava feliz com alguma coisa, as flores exalavam ainda mais os seus perfumes e abriam as pétalas, parecendo querer abraçar sua jardineira. Ao contrário, quando Heloísa aparecia no jardim cabisbaixa, lá estavam as flores, todas com um ar melancólico. Havia dias em que, à sombra de uma ruga de preocupação, suas queridas flores, com tanta dedicação, faziam retornar seu belo sorriso. As flores de Heloísa eram mesmo especiais.

Voltando à triste sina de Heloísa, estava ela no fundo do poço. Ou melhor, na lama do fundo do poço. Até que, numa crise emocional, ela se levantou de seu sofá, pegou uma pá e dirigiu-se ao jardim. Queria se desfazer das flores, e como era só ela quem cuidava das coitadinhas, e sem sua força de vontade e alegria todas as margaridas, girassóis, rosas, orquídeas e violetas iriam morrer de qualquer jeito mesmo, foi até lá para encurtar o sofrimento das pobres.

Antes de iniciar o genocídio das flores, Heloísa rezou, pedindo para que a natureza a perdoasse. O sol estava forte e a pá brilhava ainda mais, o que deu à ferramenta um certo ar de foice. As pequenas borboletas da primavera faziam visita às margaridas, uma joaninha se aninhava nos pistilos de um dos girassóis, o mais velho. Uma abelha incomodava com seu zunido algumas violetas, e as orquídeas talvez estivessem queixando-se de sede, pois Heloísa passara dias sem uma única visita. Estavam todas as flores felizes em vê-la, mas também pareciam saber das intenções da jardineira, que pegou então sua pá. O sol, no mesmo momento, se escondeu. Nuvens cinzas de chuva apareceram em questão de segundos, e uma garoa caiu. Uma garoa tão fininha e fresca que, mesmo com o sol escondido, nem os girassóis se encurvaram, pois queriam também sentir aqueles pinguinhos de chuva gelados. E Heloísa deixou-se molhar. O cheiro do chão úmido a fez voltar ao tempo de criança. As flores, se tivessem como, estariam rindo, gargalhando. E a pá, então, foi esquecida.

Hoje Heloísa está lá, em seu jardim. Plantou mais flores, adubou a terra. Algumas crianças costumam brincar de esconde-esconde atrás das moitas de azálea, e os insetos levam as sementes para todo lugar. É possível ver um broto de rosas nascendo pelas redondezas do jardim, nas casas vizinhas. Todos do bairro sabem que, se não fossem as flores e Heloísa, talvez uma das pracinhas mais lindas da cidade não existisse. E Heloísa sabe que, pelas suas flores, todo dia seus olhos abrem e ela segue seu destino, sem pensar, sem se perder pelo caminho das flores.

terça-feira, março 25, 2008

Quem brinca com fogo, com fogo se queima

Quem brinca com fogo, com fogo se queima

Seu nome era João. O dela era Teresa. Casados há vinte anos, a rotina tomara conta de suas não tão regradas vidas. Teresa era dona-de-casa, João um comerciante. Tinham uma padaria, medíocre, é verdade, mas nunca lhes faltava pão. Literalmente.
Sempre que podiam, saíam os dois juntos, de mãos dadas. Bebiam juntos uma cervejinha, no final da tarde. Brigavam muito, pois João não pensava em outra coisa a não ser na padaria. Porém, há dias, Teresa se sentia isolada. Sentia-se invisível aos olhos de João. Por muitas noites, chorou sozinha. Queria ser muito mais que sua companheira. Queria ser a luz da vida de João, e sabia que isso nunca aconteceria. Era questão de tempo para que os dois se apartassem, mas mesmo assim, ela tentava.
Teresa caiu numa depressão. Estava no fundo do poço. Encontrou algumas cartas no fundo do armário de sapatos assinadas por uma outra mulher. Eram cartas de amor, em que Teresa era massacrada. Ela era a causa dos fracassos do marido, segundo a outra. Esta prometia ao seu amante que, assim que ele pedisse a separação, viveriam o paraíso. Ela o encheria de amor, e juntos teriam filhos, teriam paz. Teresa, como sempre, sofria calada. Quando João chegou da padaria naquela noite, Teresa se resignou e nada mais fez. Não limpou mais a casa. Não tomou mais banho. Não queria mais conversar. Nem comida ela fez. Se ele queria motivos, agora os teria. Que viesse a separação.
Mas não estava assim tão decidida. Era só a raiva o que a impulsionava. Não admitia, mas gostava dele ainda, mesmo depois de saber toda a história sórdida da traição. João pediu a separação: foi na mesma noite em que ela havia saído para conversar com suas amigas costureiras. Assim que voltou, ele a chamou para um canto da cozinha e disse que não a agüentava mais. Ela não revidou. Nada disse sobre sua descoberta. Calou-se e consentiu com a cabeça. Dormiram separados.
No dia seguinte, Teresa acordou feliz. Preparou o café da manhã. João, ao despertar, pensou que sua mulher estaria confinada no banheiro, como sempre fazia quando brigavam. Surpreendeu-se, pois o rosto iluminado de Teresa a fazia ficar ainda mais jovem e bonita. Sentiu-se bem, agora poderiam ser felizes. Separados, mas felizes.
Tomou um gole do café preto preparado por Teresa, comeu o pão quentinho, com manteiga derretida. Eles até conversaram: Teresa disse que voltaria a estudar e seguiria uma profissão. João, satisfeito, deixou a mesa em direção à porta da rua. Antes de sair, sua agora ex-mulher o chamou. Queria um último beijo. Ele deu.
João abriu a porta da rua, mas antes de sair, sentiu uma pontada no peito. Havia uma pequena escada do lado de fora, e ele acabou caindo, degrau a degrau, ficando roxo e estático ao final dela. Teresa, na porta, gargalhava, uma gostosa e doentia gargalhada. Abaixou-se para verificar se o marido ainda estava vivo, e vendo que não, chamou a ambulância. Uma semana depois, viúva, Teresa ficou com a padaria. Um ano depois, com um rapaz quase dez anos mais novo como marido.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Fechado para balanço,
Sem previsão de retorno.

domingo, agosto 26, 2007

Apenas uma caneta vermelha

A embriaguez já não resolvia mais nada. Antes, era a única forma que ela encontrara de aguentar o peso da realidade. Agora já não fazia mais diferença. Andava pelas ruas da cidade encurvada, seus olhos já não brilhavam, sua vontade de continuar se esvaía a cada dia que acordava e sentia estar viva. Mas era uma covarde. Nem para dar logo um fim a todo seu sofrimento ela serviria.
Lágrimas já não possuía. Agora nem lamentava mais. Preferia calar e sentir, só ela, a frustração de não conseguir agir. Inútil não era mais uma palavra que expressasse adequadamente sua condição. Dentro dela, conviviam tragicamente a vontade de realizar seus sonhos e a decepção de ser quem era. Nunca realizaria nada. Nasceu sem qualquer dom, morreria sem deixar qualquer lembrança.
Lembrava-se de um tempo em que sorria ao acordar, em que admirava os dias azuis e muito trabalhava. Amava sua família, possuía um fogo dentro de si, era calma, otimista, não tinha medo de nada, a não ser da morte. Havia sido assim há algum tempo. Mas, naquele momento, só lhe vinham à mente os fracassos e a tristeza de não saber como resolver sua vida. Não era uma covarde, estava acovardada. E não poderia pedir ajuda, pois ninguém realmente se importava.
Solitária. Sozinha no mundo. Passou a acreditar em Deus, para ver se alguém a escutava, para poder contar com alguém. Mas, aparentemente, nem Ele. Consultou um terapeuta, depois um psiquiatra, depois uma vidente. Arriscou qualquer coisa. Nenhuma resposta, nenhum tratamento, nenhum milagre. Só a decepção, a frustração, a covardia. Por isso, desistiu. Anos e anos sem sucesso a fizeram repensar sua trajetória.
Talvez o universo - aqui o leitor entenda universo como quiser - nos mostre, através de sinais, o que devemos ser ou o que fazer em determinadas ocasiões. Um bom jogador sabe interpretar os sinais: quando começa a perder, deve se retirar da mesa. Uma dona-de-casa também tem essa percepção: o céu escurecido a faz tirar toda a roupa do varal. Um corretor da bolsa de valores, para manter seu emprego, interpreta diversas vezes os sinais do universo. Ela, então, juntou as peças do quebra-cabeça de sua vida e percebeu também os sinais que seu universo a enviava: até um dado momento, tudo caminhava bem... até seu mundo começar a ruir. Oportunidades escapavam de suas mãos finas, brigas com pessoas queridas, dificuldades financeiras, nãos por todos os lados.
Foi aí que desistiu. Despediu-se de uma vida de fracassos para tentar uma segunda chance com o universo. Preparou tudo, iniciou sua viagem sem volta. Aventurou-se pelo desconhecido conhecido por todos e deixou, em cima da mesa, sua caneta vermelha.

segunda-feira, junho 25, 2007

Papel de Astronauta

Papel de Astronauta

Parou num daqueles postes cheios de propagandas mal coladas. Encostou-se. Precisava parar para respirar e acendeu um cigarro. A brasa ficava mais vermelha a cada tragada, a fumaça que entrava em seus pulmões era menos densa que aquela que saía. Uma nuvem branca o cercava.
Era uma pessoa sem muitos amigos. Calado, fechado, preso em sua própria redoma. Não precisava dos outros, trabalhava em seu próprio cubículo numa firma importante. Cuidava dos papéis que lhe entregavam e dos que o computador lhe fornecia. Entrava às sete e saía às cinco.
Naquele momento estava em sua pausa para o almoço. Repensou sua trajetória. "Se não fosse isso... seria outra coisa." Quando criança sonhava ser astronauta. Queria poder ver o planeta lá de cima, alcançar as estrelas, pisar na Lua. Todas as noites fitava o céu à procura de uma resposta - o céu, tão misterioso, a terra, tão palpável!
Precisava voltar. Voltar a sonhar, voltar ao momento em que enterrara sua existência num amontoado de papéis vazios. Respirou fundo mais uma vez. Terminou o cigarro, grande companheiro de suas divagações, e fez o inevitável: deu um passo em direção à rotina. Uma luz, entretanto, o ofuscou. Como num susto, pulou para trás. Foi breve, mas intensa o suficiente para fazer com que sua respiração fosse interrompida e, por um momento, seu coração parasse de bater. Frações de segundo que pareciam eternas. Foi assim que ele lembrou.
O ano era 1999. Formou-se como engenheiro, cinco anos de muita dedicação. Já havia até se matriculado num curso de especialização em astrofísica, iria seguir adiante e, pelo menos, tentar. Naquele tempo tudo era mais fácil: sonhar, viver. Um telefonema no meio da tarde, porém, alterou seus planos. Seu pai havia falecido: infarto fulminante. Sua mãe, idosa, precisava do único filho. Malas feitas, seguiu para a metrópole e de lá não mais voltou. Foi contratado pela firma, passou a cuidar da mãe doente. Anos se passaram. O tempo levara seus sonhos e também o deixara sozinho. Agora apenas ele e seus papéis.
A luz cessa. Seu pulso também. Ainda visualizou, entre névoas - as brumas trazidas pela morte - a chegada dos paramédicos. Seu último pensamento, ilustrado pelo meio sorriso com o qual morrera: "Se não fosse isso, seria outra coisa".

domingo, setembro 17, 2006

Madrugadas (cont.)

MADRUGADAS (CONTINUAÇÃO)

Ele acordou. Num sobressalto, apalpou o lençol à procura da realidade. Sentiu aquele alívio reconfortante e respirou fundo, tentando lembrar-se dos detalhes. Inútil. O sonho havia se desfeito e em sua memória restara apenas uma má impressão. Ouviu sons de gavetas abrindo e copos tilintando, espreguiçou-se e desceu as escadas. Sua esposa havia preparado o café cujo cheiro já se espalhava pelos cômodos da casa, convidando os moradores a sentarem-se à mesa e prová-lo. Foi o que ele fez depois de desejar bom dia à companheira.

O café estava ótimo, o pão crocante e a manteiga na temperatura ambiente. Tudo parecia estar como deveria estar, porém a sensação era de desconforto. Enquanto ela se trocava, ele já saía. Agora só voltariam para casa à noite, cansados e cheios de problemas. Ela era secretária e ele professor de educação física num colégio particular. Ambos eram infelizes em suas profissões, mas nem os amigos mais próximos suspeitavam disso. O relacionamento, da mesma forma, parecia dos mais sólidos, entretanto tinham algo em comum, os dois: não tinham muito tempo para discussões inúteis. Há dois anos estavam morando embaixo do mesmo teto. Discutiam muito, às vezes por detalhes bobos, mas nunca brigaram seriamente.

Mas aquele seria um dia diferente.
Naquele dia ele chegou dez minutos atrasado para o trabalho. Isso talvez não fizesse diferença alguma para a maioria das escolas, porém, onde trabalhava o atraso do professor era punido com "pontos negativos", e ele já possuía dois. Mais um e, inevitavelmente, seria advertido. Regras devem ser respeitadas, afinal de contas. Ao chegar, descontou sua raiva em cima dos alunos obrigando-os a dar voltas em torno do ginásio, coisa incomum. Mesmo a raiva era incomum, nem ele mesmo estava entendendo o que sentia. Sabia que algo parecia crescer dentro de si, e entre um grito e outro, com uma das mãos em torno da cintura, procurava relembrar o sonho que tivera na noite anterior. Os flash backs apenas aguçavam sua curiosidade. Lembrava-se de uma festa e um hospital, e de um médico também. Mas o que havia acontecido?

As horas passaram, o sinal bateu e o alvoroço era geral. Crianças e adolescentes correndo de um lado a outro, comendo seus sanduíches ou as frituras medonhas da cantina. Ele apenas tomou um café forte e quente, muito quente. Queimou a ponta da língua e blasfemou. Lembrou-se que sua esposa estava também no sonho. E usava um vestido marrom-glacê, terrivelmente atraente. Nem em sonhos ela poderia usar aquele vestido, pensou ele, tomando o café de uma vez só. Agora a garganta toda queimava, o sinal gritava insistentemente e sua mente procurava resquícios de um sonho fragmentado pela memória. Deu mais duas aulas para a oitava série e foi para casa. Lá chegando, a primeira coisa que fez foi vasculhar o armário da esposa à procura de um vestido marrom-glacê.

(continua...)



quinta-feira, setembro 14, 2006

Madrugadas

MADRUGADAS


O rapaz, casado há dois anos, resolveu sair com a esposa para comemorar o lucro do mês. Eles estavam contentes, enfim, a vida lhes sorria. A filha, pequena, ficara com os avós. Saíram com antigos amigos, de anos, para beber e esquecer os problemas do dia-a-dia. Ela, linda, de vestido marrom, salto agulha. Ele usava o perfume que havia ganhado no aniversário de casamento, importado. Chegaram ao bar, sentaram-se numa mesa, muito conversaram e riram. Uma noite quente, muita música da década de setenta e oitenta. Ela até ensaiou uns passos ao ouvir sua música preferida. Num dado momento, levantou-se. Ao virar-se, sentiu um frio no estômago. Sua pressão baixou rapidamente e ela caiu, como se caísse num chão de algodão. Ao perceber, seu marido a socorreu, juntamente com os seus amigos, que também se assustaram. Sua esposa estava gelada. Seus lábios, rachados e brancos. Saíram na pressa, o corpo perfeito estava mais pesado e os olhares de todos os que se divertiam no bar era de espanto.
Chegaram ao hospital. Sala de espera, desespero. O marido não parava de andar de um lado a outro, inconformado. Muitas coisas passaram pela sua cabeça. Menos uma: que ela havia morrido.
Ao receber a notícia da morte de sua esposa, primeiro não acreditou. Olhou bem no fundo dos olhos do médico, que, espantado, disse que não entendia como uma pessoa tão saudável poderia ter morrido tão de repente. Disse, por fim, que isso era tão raro quanto encontrar um milhão de dólares num táxi (comentário totalmente inapropriado para aquele momento). Ele, então, saiu em disparada em direção à sala de cirurgia, onde ela se encontrava. Ao deparar-se com seu corpo inerte, seus lábios arroxeados e sua pele pálida, deu-lhe diversos socos no coração. Sua primeira intenção era a de reavivá-la, mas depois do quinto soco, seu corpo e seu espírito, anestesiados, apenas a golpeavam. As lágrimas que brotaram de seus olhos e a expressão de dor estampada em sua face denunciavam sua incompreensão. Como ela poderia? Naquele momento, estavam vivendo bem, não era a hora, o momento. Sentiu raiva dela e de sua morte incompreensível.
O último soco atingiu a boca do estômago dela. E, como um milagre, ela deu um pulo na maca, num espasmo, gritando e tocando todo seu corpo, como se não acreditasse estar viva. Chorando, gritando, rindo, tudo ao mesmo tempo. Todos que ali estavam, o médico que havia seguido o marido para contê-lo, os amigos que acompanharam o episódio, todos pareciam não acreditar. E realmente esta foi uma cena insólita, digna mesmo de um romance inteiro. O olhar da mulher era outro. Ela parecia ter o conhecimento de todos os mistérios do universo. Mas ali, a única coisa que fez, depois de acalmar-se, foi perguntar ao médico se havia mesmo morrido. O doutor respondeu mostrando-lhe sua assinatura num papel em que se lia: HORA DO ÓBITO: 01:30. Ela esboçou um sorriso e levantou-se. Caminhou até a porta e então o médico a parou, dizendo ser necessária a realização de vários exames, que ela não podia sair assim do hospital. Pegando o estetoscópio de seu pescoço, ela então o colocou em seu coração, e o médico ouviu as batidas ritmadas. Virou-se e então, acompanhada do marido e de seus amigos, saiu do hospital cantando uma música antiga, saltitando e feliz. Ela sabia o que havia acontecido e sabia ainda mais.
(continua...)

segunda-feira, setembro 11, 2006

Como viver numa Selva de Pedra

Como viver numa selva de pedra

"Não adianta chorar, que a dor não passa". Também não vale a pena quebrar um pau com o mundo, pois o mundo não se importa. O jeito é aceitar tudo o que você é, todos os defeitos e qualidades. Às vezes a vida parece um saco, mas ela é assim mesmo, e o ser humano não passa de um animal. Racional ou irracional? Depende do exemplar.
As derrotas são unanimidades. As vitórias, raras. Mas há chances, e se você batalhar muito, vai ver a luz no fim do túnel. Arriscar-se, dar a cara à tapa. Ser, por vezes, desacreditada. Assim é melhor, porque quando você vencer, muita gente vai quebrar a cara. E você vai rir muito.
É necessário saber as regras: a primeira, não confie em ninguém. Isso é importante. Aqueles que são confiáveis num momento, noutro levantam sua carcaça como troféu. Alguns são mais confiáveis que outros, mas é melhor precaver-se. Ninguém sabe de que lado a flecha vem.
Segunda regra: não caia, e se cair, levante rápido. Muitos serão os que passarão por cima de seu corpo inerte, caído. Não conte com aquelas almas bondosas, altruístas. Provavelmente não estarão ao seu lado quando você tropeçar numa pedra qualquer dessa selva.
Terceira regra: finja. Infelizmente, esse não é o mundo ideal. Quando estiver feliz e quiser demonstrar o quanto sua vida está maravilhosa, resista. Caso contrário, os olhares dirigir-se-ão a você, pode apostar. E nem sempre os olhares serão de admiração, pense nisso.
Quarta regra: seja insensível. O mundo sempre sorri para os insensíveis, então, pra quê lutar contra a corrente?
Quinta regra: tenha um objetivo. E nunca o deixe para trás. Um exemplo: “serei a melhor no que faço", ou "serei a melhor no que gosto de fazer". O importante é: nunca deixe ninguém dizer o contrário. Mesmo que não seja verdade, seu papel é convencer o resto da humanidade. A humildade, hoje, é um vício, não uma virtude.
Analise. Estas não são as verdadeiras regras?