Porque, quando criamos, vivemos. Porque "todo símbolo tem uma carne, todo sonho uma realidade" (O. Milosz)
quarta-feira, outubro 29, 2008
domingo, outubro 19, 2008
Não comia há dois dias. Um mês inteiro se alimentando mal deveria mesmo terminar nisso. O problema não era tanto o mal estar físico, porém, a dor de estômago piorava progressivamente. Era o vazio.
Seu trabalho era baseado em repetições. Às vezes só ponderava sobre a possibilidade de estar ficando louca, outras vezes tinha certeza disso. Mas levava a vida, na medida do possível, normalmente. Nunca deixou transparecer a ninguém que aquela rotina lhe despertava tendências ao suicídio, idéias malucas que incluíam tanto comprimidos quanto fluídos de freio.
Sua maior distração era escrever. Isso ela fazia com prazer, apesar de detestar tudo o que escrevia. Não tinha pretensões. Queria apenas expressar e exteriorizar alguns de seus pensamentos, pois, se não o fizesse, sentiria que sua cabeça explodiria. E com quase a mesma urgência de uma necessidade fisiológica. Ela evacuava pensamentos.
Dessa vez não conseguia. Ou não os tinha, ou os tinha em demasia e assim encontrava dificuldade em focá-los. Procurou caneta e papel e, só para tentar mais uma vez, começou a escrever. Queria fazer uma analogia, mas nada lhe vinha em mente. Ao olhar em volta, percebeu que uma formiga tentava carregar uma migalha de pão. Pronto! Escreveria sobre as formigas e sua capacidade física. A analogia: precisava pensar em algo que unisse a idéia de carregar seu próprio peso e carregar o peso de uma vida. Eis que o vazio novamente lhe corrói as entranhas e nenhuma palavra se encaixa. O estômago parece ter sido rasgado ao meio.
Duas colheres de leite de magnésia e algumas páginas de jornal. Lia sobre política nacional, sobre problemas na economia. Leu seu horóscopo e algumas tirinhas, mas não acreditou nem nas previsões e nem nas piadas. Sentiu-se mal, uma náusea persistente: mas não era, como ela queria, o indício da gestação de uma grande idéia que preencheria aquele vazio existencial. Este, ao que tudo indicava, perduraria pelo resto de sua vida. O que a náusea indicava era que ela não apenas iria carregar o peso de sua própria existência, mas também o de uma vida.
quinta-feira, outubro 09, 2008
Não Mais do Mesmo
A espera fazia parte da rotina. Enquanto esperava, acendia mais um cigarro. O ônibus não chegaria enquanto não acendesse o segundo, essa era sua única crença. Dali a alguns minutos a espera chegaria ao fim e mais uma vez tudo seria igual. Muito igual. E não tardou. Lá estava, subindo a rua, o velho ônibus fretado de sempre.
A terceira poltrona do lado da janela era praticamente sua. Sentou-se, fechou as cortinas vermelhas e tentou cochilar. Os raios solares acabavam de aparecer no horizonte... mais um amanhecer, como todos os outros. Não queria saber. O sol que cumprisse sua função, assim como ele. Todos eram obrigados a desempenhar suas funções, era a lei da selva de pedra. Havia perdido a capacidade de enxergar qualquer poesia à sua volta. Anos de experiência...
Mais uma parada, dessa vez, brusca. Com a freada, despertou de seus devaneios. Quase perdeu a paciência, mas deixou estar. Não lembrava de haver ponto de ônibus naquele local, era um descampado, no meio da estrada. Ouviu um agradecimento e pedidos de desculpa intermináveis. Voz feminina, jovem, desinibida. Resolveu esperar para ver quem era e, por algum acaso, se é que isso existe, ela se sentou ao seu lado. Não gostava muito de dividir seu espaço, mas naquele momento não se sentia incomodado. Cheiro de shampoo e cigarro. Respirou fundo e deu um meio sorriso, de canto de boca.
Não ousou conversar com a moça, assim como ela também não se atreveu. Desconhecidos não precisavam manter qualquer tipo de contato, no máximo um cumprimento, apenas formalidade. Refletiu um minuto... viver talvez tenha se tornado mera formalidade. Teria ele se tornado um robô, uma ferramenta de trabalho, como todos aqueles sentados em suas poltronas, apáticos, ocos? Sua companhia parecia destoar... pensou a respeito. Nova funcionária? Quem seria ela? O discurso estava formulado em sua mente, iria esclarecer o mistério. Mas as palavras não adquiriam forma... ficaram todas presas em sua garganta.
Sua cabeça estava ereta, olhava para frente, porém, sua vontade era de virar-se. Desejava, por algum motivo, guardar as feições daquele rosto. Não virou-se nem por um segundo. Sabia que ela era loira e que usava tênis allstar verdes, pois poderia vê-los sem nem se mexer muito. Num movimento ela se levantou. O quê? Seria por causa dele? Ele estaria importunando-a? Para sua felicidade momentânea, conseguiu visualizar seu perfil e seus cabelos dourados chegando às costas. Ouvira seu pedido ao motorista, novamente entre sorrisos e agradecimentos. Ela desceria no próximo ponto.
Era um desses momentos em que não se sabe como agir. Ele não soube. Ela desceu. O ônibus seguiu, e em poucos minutos chegou à firma. Ele continuou sua rotina, fez sua hora de almoço. Ao entardecer, tomou o mesmo ônibus de volta, e seu coração bateu descompassadamente no trecho em que a moça havia descido; ele nunca mais a viu. Mas o amanhecer, a partir daquele fatídico dia, era uma esperança a mais. Afinal, outro amanhecer daqueles poderia se repetir, um dia, talvez.
terça-feira, setembro 23, 2008
O Andarilho, o Monge e a Catedral
O Andarilho, o Monge e a Catedral
Crispim caminhava lentamente em direção àquela catedral. Não havia mais nada a fazer, senão caminhar. Há algum tempo já não encontrava um próposito para continuar a viver, sua vida tornara-se tão vazia quanto a construção milenar onde entrava naquele momento. As paredes antigas ecoavam seus passos, os vitrais outrora coloridos e vivos transformaram-se em figuras incompreensíveis que, ao invés de encantar, agora cortavam facilmente quem as tocasse.A monumental arquitetura não mais deslumbrava, e sim amedrontava quem ousasse lá entrar. Mas Crispim não tinha medo, pois havia procurado um sentido em todos os lugares e em nenhum achara. Restava apenas a catedral, conselho de um viajante sem rumo com quem encontrou-se ao mendigar.
Crispim acreditava que era aquele lugar inóspito, sem vival alma com quem pudesse discutir a respeito da inexistência de Deus, o que se tornaria uma ironia, por ele mesmo estar numa casa divina. Porém, arrastando suas sandálias já bem gastas, o andarilho sentiu-se acompanhado. Avistou um monge, de barbas compridas e brancas, olhos envoltos numa serenidade quase desumana. Pasmo, Crispim pensou em deixar o recinto, tão enfadonho se tornou seu ânimo para conversas. Com apenas um olhar, no entanto, o monge aparentemente o convencera a ficar. Chegou perto, pousou sua mão delicadamente no ombro esquerdo de Crispim. Sua mão não pesava, era uma pluma, e parecia querer tirar o peso que o pobre perdido carregava. A partir disso, Crispim chorou e desatou a contar ao monge todas suas desilusões, blasfemou muito também, e afirmou que nada fazia sentido, pois estava oco por dentro. O monge, ao final do desabafo, sorriu. Perguntou a Crispim se este via ou ouvia as multidões de dentro da catedral. Este, incrédulo, respondeu que não havia mais ninguém ali, exceto ambos. Insinuou estar o sábio com problemas de discernimento, e então ouviu, pela primeira vez, a voz suave e forte ao mesmo tempo lhe explicar sua visão sobre o real sentido da vida:
"Jovem, há aqui multidões de anjos que contemplam, todos os dias, a magnitude divina. Eu mesmo posso afirmar isso, pois os ouço e junto minha voz às deles, pois acredito que, além do corpo, somos almas em busca de amor. E o maior amor de todos está muito além de paredes, de vitrais, de sandálias, roupas ou corpos. Basta sentir, no fundo de seu coração, o seu chamado".
Crispim fechou os olhos. Tocando o chão batido da catedral, parecia entender o que o monge queria dizer, pois o tempo, tão infinito, vibrava, o fazia tremer. O tempo, tão antigo, parecia lhe falar através daquele chão. Entendera que procurava na imensidão da terra material algo que já estava ali dentro dele mesmo, esperando. E então ele reconstruiu sua catedral, começando pelos alicerces, e agradeceu ao monge apenas com um olhar e um sorriso.
sábado, agosto 16, 2008
Brainstorm
Brainstorm
Engraçado ter trinta anos. Parece, à primeira vista, algo distante aos mais jovens e nostálgico aos mais velhos. Só o que posso dizer é: procuro viver os trinta... apesar de não acreditar que cheguei à alcunha de balzaquiana, se olho para trás, a impressão é de que vivi mesmo três décadas. Quando eu tinha 12 anos, pensava que com trinta seria uma mulher feita, com emprego estável, carro, casa, família. Uma imagem de sucesso profissional e afetivo, claro. Estranho demais ver que nada mudou muito nos últimos sete anos. Parece que parei nos vinte e três. Acabo não acreditando...
Isso na verdade não é ruim. E nem me refiro à aparência; não tenho medo de envelhecer, procuro me dar bem com o espelho... que as rugas cheguem em sua hora. A questão central de minha descrença é justamente minha situação atual: vivo correndo de lá pra cá, como no começo da carreira; não consegui juntar uma grana bacana e comprar meu veículo próprio (quanto mais a casa) e não tenho cara de mulher feita! Me sinto frustrada, de certa forma, porque tenho medo de que a menininha ruiva que mora dentro de mim não esteja satisfeita com o que encontrou ao bater a marca dos trinta... eu, pessoalmente, amo muito essa menina-mulher que me tornei.
Não sinto falta de nada. Tenho minhas experiências passadas, ricas e intensas... tenho uma personalidade, uma família que me ama, uma profissão que já tentei (pelo dinheiro) trocar, mas que hoje é fundamental para manter meu equilíbrio - se eu deixasse de dar aulas, acho que enlouqueceria. Não reclamo de nada mesmo. Se a felicidade pode ser definida, acredito que deva ser algo parecido com isso que descrevi. Você se sentir confortável com o momento de sua vida, com as pessoas que participam de sua vida, com suas experiências de vida, com seu estilo de vida. Minha vida é uma boa vida.
Problemas eu tenho sim... às vezes até caio em tentação e penso em desistir de tudo. Mas, a esta altura, algo aprendi: tudo se resolve. Tudo, menos a morte. Pode ser rápido, pode demorar anos, mas tudo se resolve... o importante é manter seu equilíbrio e confiar, acreditar mesmo. Coisas que aconteceram há oito anos, por exemplo, me pareciam o fim do mundo. Outros problemas que rolaram há três me tornaram uma pessoa triste, depre mesmo. Hoje aprendi que devemos nos desapegar dos problemas. Tem gente que gosta de bater a cabeça na parede. Eu não. Nunca mais.
Acabei caindo na auto-ajuda. Desculpem-me!! Não era bem essa a minha intenção. Mas como cheguei até aqui e não estou com coragem de apagar tudo, fica o texto. Uma verdadeira brainstorm...
sábado, abril 12, 2008
Do Tempo da Inocência
Do tempo da inocência
Berê era só alegria por fora, mas por dentro estava com o coração na mão. Tentava afastar os pensamentos ruins com um sorriso bem largo, de orelha a orelha. Estava numa das festas anuais realizadas pela equipe do trabalho, e por mais que quisesse, não conseguia se desprender de certas lembranças que a atormentavam como latejantes dores de cabeça. Lá pelas tantas, resolveu que iria tentar, pelo menos. Abriu então uma latinha de cerveja. Depois outra. Já se sentia melhor.
A partir daí Berê já não sentia mais a dor das lembranças, muito pelo contrário. Agora era ela mesma, leve, sem qualquer peso a arrastando para o fundo de seu oceano de culpas. Sentou-se numa rodinha de saudosistas da década de setenta, trocou idéias a respeito de música brasileira com uma colega de trabalho, arriscou alguns passos na pista de dança. O melhor da noite foi mesmo a hora de ir embora. Mas antes disso ainda riu muito, e também fez outros rirem. Pensou que, talvez, ela mesma estivesse complicando sua vida... era muito querida por todos e não havia motivos para tanto aperto, tanta aflição, tanta melancolia.
Berê viraria uma abóbora às nove. Precisava sair correndo, teria ainda que tomar dois ônibus para chegar à sua casa e já era hora. Mas estava com muito medo da solidão, das ruas vazias, dos mal encarados. Decidiu perguntar a uma de suas amigas, Lah, se ela poderia acompanhá-la até o ponto; J.J., ouvindo o pedido de Berê, com um grande abraço confirmou que também iria. Saíam então os três a caminho, só que mais gente se juntou à romaria:Pat, Elvis e Érico. Agora estavam em seis, e Berê se sentiu, pela primeira vez em anos, alguém especial. Não somente pelo fato de estar acompanhada, mas por ser amiga de pessoas que cultivavam a inocência e a amizade verdadeira, que é aquela que dura a vida toda. Ela sabia disso, sentia isso. E pedira por isso a vida toda.
Ao chegar em casa relembrou cada pedacinho de tempo daquela noite, e quem a tivesse visto naquele momento não entenderia o porquê de seu sorriso tão insistente. Só ela mesma, que percebera o quão simples é a felicidade.
segunda-feira, março 31, 2008
As Flores do Caminho
Rezava, chorava, se atormentava. Heloísa começava a perder a noção de tempo e espaço. Parecia que nada fazia sentido, que o sol brilhante e quente já não a aquecia ou a iluminava como antes. Que o mistério da lua, antes tão instigante para ela, já não existia mais. Que as flores coloridas mereciam morrer secas e que o perfume delas se esvaísse pelo ar, perdendo-se nas nuvens negras de fumaça. Que motivos teria Heloísa para se tornar tão triste? Se perguntássemos a ela, nem a própria conseguiria responder. Acúmulo de tristezas, talvez.
Houve um dia em que suas esperanças escaparam da caixa. Tudo o que ela temia acontecer acabou acontecendo. Perdeu sua vontade. Perdeu as forças. Viu-se perdida num mundo escuro, tão escuro quanto um filme de Tim Burton. Estava sim sozinha, mas isso não fazia diferença, o pior de tudo era sentir-se perdida. Não se reconhecia mais, nem aos outros. Esse poderia ser o fim para Heloísa. Mas não foi, e graças às flores de seu lindo jardim.
Havia plantado algumas belas flores num jardim que antes era abandonado. Cuidava delas já fazia tempo. Pareciam ter personalidade, as danadas. Quando Heloísa estava feliz com alguma coisa, as flores exalavam ainda mais os seus perfumes e abriam as pétalas, parecendo querer abraçar sua jardineira. Ao contrário, quando Heloísa aparecia no jardim cabisbaixa, lá estavam as flores, todas com um ar melancólico. Havia dias em que, à sombra de uma ruga de preocupação, suas queridas flores, com tanta dedicação, faziam retornar seu belo sorriso. As flores de Heloísa eram mesmo especiais.
Voltando à triste sina de Heloísa, estava ela no fundo do poço. Ou melhor, na lama do fundo do poço. Até que, numa crise emocional, ela se levantou de seu sofá, pegou uma pá e dirigiu-se ao jardim. Queria se desfazer das flores, e como era só ela quem cuidava das coitadinhas, e sem sua força de vontade e alegria todas as margaridas, girassóis, rosas, orquídeas e violetas iriam morrer de qualquer jeito mesmo, foi até lá para encurtar o sofrimento das pobres.
Antes de iniciar o genocídio das flores, Heloísa rezou, pedindo para que a natureza a perdoasse. O sol estava forte e a pá brilhava ainda mais, o que deu à ferramenta um certo ar de foice. As pequenas borboletas da primavera faziam visita às margaridas, uma joaninha se aninhava nos pistilos de um dos girassóis, o mais velho. Uma abelha incomodava com seu zunido algumas violetas, e as orquídeas talvez estivessem queixando-se de sede, pois Heloísa passara dias sem uma única visita. Estavam todas as flores felizes em vê-la, mas também pareciam saber das intenções da jardineira, que pegou então sua pá. O sol, no mesmo momento, se escondeu. Nuvens cinzas de chuva apareceram em questão de segundos, e uma garoa caiu. Uma garoa tão fininha e fresca que, mesmo com o sol escondido, nem os girassóis se encurvaram, pois queriam também sentir aqueles pinguinhos de chuva gelados. E Heloísa deixou-se molhar. O cheiro do chão úmido a fez voltar ao tempo de criança. As flores, se tivessem como, estariam rindo, gargalhando. E a pá, então, foi esquecida.
Hoje Heloísa está lá, em seu jardim. Plantou mais flores, adubou a terra. Algumas crianças costumam brincar de esconde-esconde atrás das moitas de azálea, e os insetos levam as sementes para todo lugar. É possível ver um broto de rosas nascendo pelas redondezas do jardim, nas casas vizinhas. Todos do bairro sabem que, se não fossem as flores e Heloísa, talvez uma das pracinhas mais lindas da cidade não existisse. E Heloísa sabe que, pelas suas flores, todo dia seus olhos abrem e ela segue seu destino, sem pensar, sem se perder pelo caminho das flores.
terça-feira, março 25, 2008
Quem brinca com fogo, com fogo se queima
Sempre que podiam, saíam os dois juntos, de mãos dadas. Bebiam juntos uma cervejinha, no final da tarde. Brigavam muito, pois João não pensava em outra coisa a não ser na padaria. Porém, há dias, Teresa se sentia isolada. Sentia-se invisível aos olhos de João. Por muitas noites, chorou sozinha. Queria ser muito mais que sua companheira. Queria ser a luz da vida de João, e sabia que isso nunca aconteceria. Era questão de tempo para que os dois se apartassem, mas mesmo assim, ela tentava.
Teresa caiu numa depressão. Estava no fundo do poço. Encontrou algumas cartas no fundo do armário de sapatos assinadas por uma outra mulher. Eram cartas de amor, em que Teresa era massacrada. Ela era a causa dos fracassos do marido, segundo a outra. Esta prometia ao seu amante que, assim que ele pedisse a separação, viveriam o paraíso. Ela o encheria de amor, e juntos teriam filhos, teriam paz. Teresa, como sempre, sofria calada. Quando João chegou da padaria naquela noite, Teresa se resignou e nada mais fez. Não limpou mais a casa. Não tomou mais banho. Não queria mais conversar. Nem comida ela fez. Se ele queria motivos, agora os teria. Que viesse a separação.
Mas não estava assim tão decidida. Era só a raiva o que a impulsionava. Não admitia, mas gostava dele ainda, mesmo depois de saber toda a história sórdida da traição. João pediu a separação: foi na mesma noite em que ela havia saído para conversar com suas amigas costureiras. Assim que voltou, ele a chamou para um canto da cozinha e disse que não a agüentava mais. Ela não revidou. Nada disse sobre sua descoberta. Calou-se e consentiu com a cabeça. Dormiram separados.
No dia seguinte, Teresa acordou feliz. Preparou o café da manhã. João, ao despertar, pensou que sua mulher estaria confinada no banheiro, como sempre fazia quando brigavam. Surpreendeu-se, pois o rosto iluminado de Teresa a fazia ficar ainda mais jovem e bonita. Sentiu-se bem, agora poderiam ser felizes. Separados, mas felizes.
Tomou um gole do café preto preparado por Teresa, comeu o pão quentinho, com manteiga derretida. Eles até conversaram: Teresa disse que voltaria a estudar e seguiria uma profissão. João, satisfeito, deixou a mesa em direção à porta da rua. Antes de sair, sua agora ex-mulher o chamou. Queria um último beijo. Ele deu.
João abriu a porta da rua, mas antes de sair, sentiu uma pontada no peito. Havia uma pequena escada do lado de fora, e ele acabou caindo, degrau a degrau, ficando roxo e estático ao final dela. Teresa, na porta, gargalhava, uma gostosa e doentia gargalhada. Abaixou-se para verificar se o marido ainda estava vivo, e vendo que não, chamou a ambulância. Uma semana depois, viúva, Teresa ficou com a padaria. Um ano depois, com um rapaz quase dez anos mais novo como marido.
segunda-feira, novembro 12, 2007
domingo, agosto 26, 2007
segunda-feira, junho 25, 2007
Papel de Astronauta
domingo, setembro 17, 2006
Madrugadas (cont.)
As horas passaram, o sinal bateu e o alvoroço era geral. Crianças e adolescentes correndo de um lado a outro, comendo seus sanduíches ou as frituras medonhas da cantina. Ele apenas tomou um café forte e quente, muito quente. Queimou a ponta da língua e blasfemou. Lembrou-se que sua esposa estava também no sonho. E usava um vestido marrom-glacê, terrivelmente atraente. Nem em sonhos ela poderia usar aquele vestido, pensou ele, tomando o café de uma vez só. Agora a garganta toda queimava, o sinal gritava insistentemente e sua mente procurava resquícios de um sonho fragmentado pela memória. Deu mais duas aulas para a oitava série e foi para casa. Lá chegando, a primeira coisa que fez foi vasculhar o armário da esposa à procura de um vestido marrom-glacê.
quinta-feira, setembro 14, 2006
Madrugadas
O rapaz, casado há dois anos, resolveu sair com a esposa para comemorar o lucro do mês. Eles estavam contentes, enfim, a vida lhes sorria. A filha, pequena, ficara com os avós. Saíram com antigos amigos, de anos, para beber e esquecer os problemas do dia-a-dia. Ela, linda, de vestido marrom, salto agulha. Ele usava o perfume que havia ganhado no aniversário de casamento, importado. Chegaram ao bar, sentaram-se numa mesa, muito conversaram e riram. Uma noite quente, muita música da década de setenta e oitenta. Ela até ensaiou uns passos ao ouvir sua música preferida. Num dado momento, levantou-se. Ao virar-se, sentiu um frio no estômago. Sua pressão baixou rapidamente e ela caiu, como se caísse num chão de algodão. Ao perceber, seu marido a socorreu, juntamente com os seus amigos, que também se assustaram. Sua esposa estava gelada. Seus lábios, rachados e brancos. Saíram na pressa, o corpo perfeito estava mais pesado e os olhares de todos os que se divertiam no bar era de espanto.
Chegaram ao hospital. Sala de espera, desespero. O marido não parava de andar de um lado a outro, inconformado. Muitas coisas passaram pela sua cabeça. Menos uma: que ela havia morrido.
Ao receber a notícia da morte de sua esposa, primeiro não acreditou. Olhou bem no fundo dos olhos do médico, que, espantado, disse que não entendia como uma pessoa tão saudável poderia ter morrido tão de repente. Disse, por fim, que isso era tão raro quanto encontrar um milhão de dólares num táxi (comentário totalmente inapropriado para aquele momento). Ele, então, saiu em disparada em direção à sala de cirurgia, onde ela se encontrava. Ao deparar-se com seu corpo inerte, seus lábios arroxeados e sua pele pálida, deu-lhe diversos socos no coração. Sua primeira intenção era a de reavivá-la, mas depois do quinto soco, seu corpo e seu espírito, anestesiados, apenas a golpeavam. As lágrimas que brotaram de seus olhos e a expressão de dor estampada em sua face denunciavam sua incompreensão. Como ela poderia? Naquele momento, estavam vivendo bem, não era a hora, o momento. Sentiu raiva dela e de sua morte incompreensível.
O último soco atingiu a boca do estômago dela. E, como um milagre, ela deu um pulo na maca, num espasmo, gritando e tocando todo seu corpo, como se não acreditasse estar viva. Chorando, gritando, rindo, tudo ao mesmo tempo. Todos que ali estavam, o médico que havia seguido o marido para contê-lo, os amigos que acompanharam o episódio, todos pareciam não acreditar. E realmente esta foi uma cena insólita, digna mesmo de um romance inteiro. O olhar da mulher era outro. Ela parecia ter o conhecimento de todos os mistérios do universo. Mas ali, a única coisa que fez, depois de acalmar-se, foi perguntar ao médico se havia mesmo morrido. O doutor respondeu mostrando-lhe sua assinatura num papel em que se lia: HORA DO ÓBITO: 01:30. Ela esboçou um sorriso e levantou-se. Caminhou até a porta e então o médico a parou, dizendo ser necessária a realização de vários exames, que ela não podia sair assim do hospital. Pegando o estetoscópio de seu pescoço, ela então o colocou em seu coração, e o médico ouviu as batidas ritmadas. Virou-se e então, acompanhada do marido e de seus amigos, saiu do hospital cantando uma música antiga, saltitando e feliz. Ela sabia o que havia acontecido e sabia ainda mais.
segunda-feira, setembro 11, 2006
Como viver numa Selva de Pedra
"Não adianta chorar, que a dor não passa". Também não vale a pena quebrar um pau com o mundo, pois o mundo não se importa. O jeito é aceitar tudo o que você é, todos os defeitos e qualidades. Às vezes a vida parece um saco, mas ela é assim mesmo, e o ser humano não passa de um animal. Racional ou irracional? Depende do exemplar.
As derrotas são unanimidades. As vitórias, raras. Mas há chances, e se você batalhar muito, vai ver a luz no fim do túnel. Arriscar-se, dar a cara à tapa. Ser, por vezes, desacreditada. Assim é melhor, porque quando você vencer, muita gente vai quebrar a cara. E você vai rir muito.
É necessário saber as regras: a primeira, não confie em ninguém. Isso é importante. Aqueles que são confiáveis num momento, noutro levantam sua carcaça como troféu. Alguns são mais confiáveis que outros, mas é melhor precaver-se. Ninguém sabe de que lado a flecha vem.
Segunda regra: não caia, e se cair, levante rápido. Muitos serão os que passarão por cima de seu corpo inerte, caído. Não conte com aquelas almas bondosas, altruístas. Provavelmente não estarão ao seu lado quando você tropeçar numa pedra qualquer dessa selva.
Terceira regra: finja. Infelizmente, esse não é o mundo ideal. Quando estiver feliz e quiser demonstrar o quanto sua vida está maravilhosa, resista. Caso contrário, os olhares dirigir-se-ão a você, pode apostar. E nem sempre os olhares serão de admiração, pense nisso.
Quarta regra: seja insensível. O mundo sempre sorri para os insensíveis, então, pra quê lutar contra a corrente?
Quinta regra: tenha um objetivo. E nunca o deixe para trás. Um exemplo: “serei a melhor no que faço", ou "serei a melhor no que gosto de fazer". O importante é: nunca deixe ninguém dizer o contrário. Mesmo que não seja verdade, seu papel é convencer o resto da humanidade. A humildade, hoje, é um vício, não uma virtude.
Analise. Estas não são as verdadeiras regras?