sábado, novembro 21, 2009

AEon Flux e outros pensamentos


   A vontade repentina de escrever não é usual. O processo criativo leva alguns dias, pois primeiramente trabalho as ideias nos momentos ociosos do dia, escrevo um rascunho (em folhas de sulfite que encontro na coordenação do colégio, em guardanapinhos dos botecos) para, só depois de algumas alterações, publicar. Alguns poucos textos foram criados sem planejamento - esses geralmente inspirados por uma música  tocante ou por um filme recém-assistido (alguns por raiva mesmo, pura e simplesmente). Eu poderia ter criado uma narrativa a partir de Aeon Flux, mas seria pretensão demais, então resolvi comentar minhas impressões assim, humildemente.

   Assisti algumas partes do desenho, este perturbador, surreal e atrevido - do jeito que gosto. Quando possível, usarei meu poder aquisitivo para satisfazer meu desejo consumista de possuir o box completo dos episódios. Por enquanto, aproveito para expor algumas ideias que fervilham aqui dentro - escrevo por isso mesmo, para não enlouquecer. Minha mente muito se parece com uma panela de pressão, se a ideia cozinhar por muito tempo, explodo.

   Exagero da minha parte! Não enlouqueceria nem explodiria. Mas a necessidade é real.

   No filme - que acabou de ser exibido pela milionésima vez na tv - quem interpreta a Aeon é Charlize Theron. Cumpriu seu papel, o que é até surpreendente, visto que a personagem original é muito mais complexa, assim como o enredo (que na verdade não segue qualquer regra de coerência ou linha temporal - e isso é muito legal mesmo). No filme, a relação entre Aeon e Trevor baseia-se num romantismo típico dos filmes hollywoodianos, o que é de se esperar. No desenho, para quem já acompanhou, Aeon é amante de seu arqui-inimigo, o que rende cenas de um erotismo latente mesclado com tiros e sangue.  E isso era exibido pela MTV na década de noventa, no meio da tarde.

   De maneira sintética, o que impressiona é a ideia da imortalidade presente no enredo - tema que persegue a humanidade desde sempre, na maioria das vezes trabalhado de forma banal ou, mais raramente, de forma inteligente. No desenho nada era explicado e o público, forçadamente, levado a intuir, episódio a episódio, os detalhes da história. No filme, os entrames e personagens foram mastigados, bastando ao espectador apenas engolir - uma grande parte não conseguiu, aliás. Volto ao que pretendia dizer: a ideia da imortalidade nos faz repensar nossa própria existência. Seguimos a rotina tão automaticamente que não percebemos a aproximação, cada vez maior, da morte. É claro que pensamos nisso de vez em quando, com medo ou angústia. Todavia, reproduzindo as mesmas palavras usadas por Aeon no filme, "We're meant to die. Its what makes everything about us matter".


   Somente uma vida, a princípio. Não há outra certeza. Desesperador ou energizante? Talvez seja por isso que, ao envelhecermos, perdemos nossa vitalidade e jovialidade, afinal, é um preço justo a pagar pela sabedoria - que, de brinde, traz consigo o esclarecimento e a resposta à pergunta acima.

   Por hoje é só. Deixo com vocês a Aeon original.




  

  

terça-feira, novembro 17, 2009

Madrugadas (continuação)


   Naquele dia ele chegou dez minutos atrasado para o trabalho. Isso talvez não fizesse diferença alguma para a maioria das escolas, porém, onde trabalhava o atraso do professor era punido com "pontos negativos", e ele já possuía dois. Mais um e, inevitavelmente, seria advertido de maneira severa. Regras devem ser respeitadas, afinal de contas. Ao chegar, descontou sua raiva em cima dos alunos obrigando-os a dar voltas em torno do ginásio, coisa incomum. Mesmo a raiva era incomum, nem ele mesmo estava entendendo o que sentia. Sabia que algo parecia crescer dentro de si, e entre um grito e outro, com uma das mãos em torno da cintura, procurava relembrar o sonho que tivera na noite anterior. Os flash backs apenas aguçavam sua curiosidade.

   Lembrava-se de uma festa e um hospital, e de um médico também. Mas o que havia acontecido? As horas passaram, o sinal bateu e o alvoroço era geral. Crianças e adolescentes correndo de um lado a outro, comendo seus sanduíches ou as frituras medonhas da cantina. Ele apenas tomou um café forte e quente, muito quente. Queimou a ponta da língua e blasfemou. Lembrou-se que sua esposa estava também no sonho. E usava um vestido marrom-glacê, terrivelmente atraente. Nem em sonhos ela poderia usar aquele vestido, pensou ele, tomando o café de uma vez só. Agora a garganta toda queimava, o sinal gritava  e sua mente procurava resquícios de um sonho fragmentado pela memória. Depois de mais duas aulas para a oitava série foi para casa. Lá chegando, com urgência vasculhou o armário da esposa à procura de um vestido marrom-glacê.

   E lá estava! Um vestido da mesma cor... mas diferente. Não era tão justo quanto o do sonho. Ele lembrou-se do quanto custara caro na época, há aproximadamente três anos. Comprara numa botique chique. Era aniversário dela, mas estavam brigados (não lembrou-se do motivo). Porém, sentira vontade de aparecer com algo diferente, nada de rosas ou chocolates. Chegara atrasado ao shopping e quase se deparou com a loja fechada. O lugar era enorme, as atendentes finas e elegantes e o público, em peso, feminino. Lembrou-se daquela sensação: como um estrangeiro numa terra estranha. Acabara levando para casa aquele vestido que agora escorregava de sua mão.

   Aquilo era cetim. O vestido do sonho parecia seda e, se não fosse algum jogo entre sua memória e sua imaginação, estava certo de que também era transparente. Olhou para o teto, respirou fundo, olhou de volta para o vestido. Suspirou alto e guardou-o. Queria esquecer o sonho, voltar à rotina. Mas aquela sensação... talvez estivesse apenas impressionado. Perguntou-se se um sonho poderia enlouquecer um homem. Não sabia.

   Horas se passaram.

   O tempo todo tentava esquecer suas paranóias, mas aquela sensação esquisita teimava em voltar a perturbá-lo. Lavou toda a louça da cozinha para afastar os pensamentos negativos, porém de nada adiantou. Procurou então entreter-se com um filme, e durante duas horas a manobra deu certo. Não conseguiu terminar de ver os créditos finais e então, desesperado com aqueles sentimentos desconcertantes e insistentes, resolveu sair e fazer uma caminhada. Pensou que talvez pudesse até comprar alguns pães e frios para comer na hora da ceia. Concordou também que seria sensato conversar com a esposa sobre o estranho sonho que tanto lhe assombrava durante as últimas 48 horas.

   Sete horas da noite. O sol se escondia cada vez mais no horizonte. Os tons alaranjados e rosados do céu o fizeram parar para assistir aquela cena tão banal e ao mesmo tempo tão fantástica. Um pássaro voou baixo e se enfiou entre os galhos de uma árvore próxima. Com certeza, pensava ele, agora a ave iria descansar suas asas, pois o domínio da noite e sua escuridão era certo e estava próximo. Agora era hora de repousar e esperar até que o sol, cintilante, retomasse o seu posto, tão efêmero quanto o da própria madona das trevas.

   Chegou em casa e já era noite. Ruminava mentalmente a conversa que teria com a esposa assim que chegasse. Ela, certamente, já teria ligado para meio mundo à sua procura. Mas só o que pensava era em resolver logo essa insana situação. Abriu a porta, entrou. Na sala, jogadas no chão e amontoadas no centro de mesa, diversas agendas telefônicas. Vindos da escada, os passos apressados da mulher. Ela o fita por alguns segundos e corre para abraçá-lo, e o que se ouvia entre alguns suspiros de alívio era "meu amor, que que te aconteceu?" e "queria me matar de preocupação?".

   Dois minutos depois estavam sentados no sofá e ele a fitava. Ela já não era tão jovem. A vida também não fôra tão fácil assim. O casamento, a filha, o trabalho. Preocupações. Há quanto tempo não se divertiam? Tentou lembrar-se da última vez que saíram para beber e dançar... não conseguiu. É que, com o tempo, certos interesses acabam ficando em segundo plano. Ou terceiro... ou acabam sendo deixados de lado. A mensalidade da escola, a compra do mês, o seguro do carro, tudo isso pesava mais na balança. Não  se tornara possível gastar o pouco que tinham para reencontrar os velhos amigos em velhas  sessões de nostalgia. Pensando melhor, talvez estivessem velhos demais para isso. Talvez o problema não fosse financeiro.

   A esposa questionou-o, queria saber qual era o problema. Disse que ele estava quieto demais, perguntou-lhe em que mundo estava. Os olhos dela agora serviam como espelhos e a imagem que via não lhe agradou. A imagem de alguém que nunca quisera ser. Por fim, resolveu contar-lhe sobre o sonho que tivera. Detalhe por detalhe. Quando terminou a narrativa esperava por consolo, afinal, até aquele momento pensava estar louco. A esposa, num espasmo, desatou a rir. "Deixa disso, meu bem, era só um sonho. Acho melhor a gente sair hoje, ficar bêbados, porque na segunda a Bibi volta." Alívio. Respirou e riu também. Mas riu um riso forçado, como quando rimos de uma situação desesperadora. Abraçaram-se e subiram para o quarto.
A esposa despiu-se, ele despiu-se. Tomaram banho juntos, como há anos não faziam. Embaixo do chuveiro, gemidos. Estavam, enfim, felizes, e seu sonho não mais se repetiu.



domingo, novembro 01, 2009

Um café requentado e um mantra mal recitado



As nuvens já rodeavam a cidade há dias, como se estivessem esperando o momento certo para que deixassem cair suas gotas de chuva. E foi justamente naquela manhã. O despertador ainda não tocara, mas ela já havia acordado. Pela fresta da janela só via um céu cinzento, mal humorado. Pensou em suas blusas de frio, todas empoeiradas, guardadas há meses dentro do armário e suspirou. O pior não seria isto, e sim a falta de um guarda-chuva, objeto muito útil para quem não possuía um veículo próprio - como ela. Deu de ombros. O despertador berrou, fazendo-a pular da cama, literalmente.

Zonza de sono, caminhou em direção ao vaso sanitário. A louça gelada a fez despertar de uma vez. Bem que poderia inventar uma desculpa para não ir trabalhar e dormir mais algumas horas. Quem sabe até a hora do almoço... mas não. Não iria conseguir dormir novamente e poderia ainda se arrepender, pois sua consciência não iria deixá-la em paz. Ligou o chuveiro. A primeira rajada de água estava gelada e então blasfemou. Passados vinte minutos, não queria mais sair debaixo daquela ducha tão aconchegante. A temperatura da água se assemelhava à temperatura de seu edredon, o vapor a divertia - rabiscava com o dedo no vidro do box vários corações, pirulitos e estrelas -, o perfume do xampu a relaxava ao mesmo tempo em que o sabonete a acariciava. Naquele momento estava no paraíso. Suspirou. O tempo passava, ela precisava sair do banho. Desligou o chuveiro, se enxugou e, saindo do banheiro, sentiu o ar mais frio. Vestiu-se rapidamente, desceu as escadas e tomou um café requentado no microondas, uma droga. Saiu de casa.

Ponto de ônibus: nenhum chega. Impaciente, acende mais um cigarro. Dentro de vinte minutos teria que entrar na sala de aula e até aquele momento nenhuma condução aparecia. O frio e a chuva só pioravam a situação e para relaxar um pouco ela mentalizava um mantra. Vira na televisão uma reportagem sobre budismo dizendo que em situações adversas o tal mantra poderia ser recitado. Budismo em escala global. Palhaçada!

Apesar de saber que talvez não adiantaria muito, iniciou uma sequências de "ows" desafinados e riu sozinha. O vento, inexplicavelmente, tomou outra direção e a chuva passou a molhar toda a sua calça jeans. O tênis já estava encharcado, assim como sua meia. O próximo passo seria ela ficar gripada, o que não era tão ruim, pois poderia faltar ao trabalho sem se sentir uma pessoa desonesta. Mas antes que ela pudesse se imaginar quentinha embaixo de seu edredon, o ônibus chega.

Sentou-se no primeiro banco que viu. Olhando pela janela, ficou a divagar sobre a vida, como todos os dias fazia. Nunca chegou a conclusão alguma, possuía apenas suas premissas. Mesmo suas certezas eram incertas, e ela sempre refletia sobre a falta de controle que possuía sobre seu destino. Entretanto, nessa manhã concluiu uma ideia, finalmente: não havia certeza alguma na vida, e era essa a graça. Se tudo fosse tão certo não haveria risco algum e a vida não teria suas surpresas.

Deu sua aula, corrigiu as provas de seus alunos, discutiu com os mais interessados. Sabia o que estava fazendo. Ali era o seu mundo, o seu lugar. Não teria que se preocupar com o tempo, com as contas, com tudo aquilo que não podia controlar. Tudo ficava sob controle a partir do momento em que começava sua primeira aula do dia. E isso a deixava satisfeita.

Seis da tarde. Mais um ônibus. Inexistência de nuvens no céu, que já ficava alaranjado. O pôr-do-sol a fazia sentir-se mais viva, a noite a fazia sentir-se mais feminina. Mas antes de chegar em casa, espirrou. É, provavelmente não iria trabalhar no dia seguinte...


terça-feira, outubro 13, 2009

Enquanto você dorme, há quem olhe por (para) você

Frenesi



Um silêncio compete com o barulho infernal que se esconde dentro de sua cabeça. Um barulho que aparece sempre quando você acorda ou quando se sente perdido num sono (ou sonho?) profundo, quando tudo o que vê se resume a você mesmo, contorcido pelas lembranças, pelos medos, pelas fraquezas. Uma náusea interrompe seus pensamentos e se espalha por todo o corpo, enraiza-se dentro de sua alma e você desfalece. Uma lança de lâminas curvas e cortantes atravessa a carne de seu coração, e nesse momento você se pergunta: por que eu?

Estranhos prazeres para quem se considera perfeito. O céu cinzento parece ser a única coisa palpável. O sol já não ajuda mais como antigamente, quando você ainda era uma criança que gostava de sair para brincar de esguicho. Você sente pena de si mesmo. Sabe estar preso num labirinto que você mesmo construiu e do qual, inexplicavelmente, desconhece a saída. Sem forças para lutar contra, sem esperanças, desnorteado. Mas tudo é como num sonho perdido, você consegue rir e sentir-se bem, um masoquismo maquiado.

Mais uma vez o céu parece não ser grande coisa. Você olha para cima, procura alguma estrela cadente, uma nave espacial, um sinal divino. Nada acontece e tudo o que você vê é o reflexo de si mesmo nos olhos de um estranho. E isso é tudo.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Santa Ingenuidade!



Há algo que se aprende na vida adulta: perder a inocência. Ao contrário do que Fellini acreditava, me parece que o mundo hoje não aprecia em nada a ingenuidade... há quem ainda grite a plenos pulmões a favor de uma vida menos maliciosa, mais infantil - e veja, nesse sentido, não me refiro à irresponsabilidade ou à imaturidade, mas à inocência -, mas o que percebo é o contrário. Triste, mas verdadeiro: perdemos nossa inocência há muito tempo.

Ao nosso redor há todo tipo de maldade. Não é necessário procurar muito, facilmente encontramos no ponto de ônibus, ou nas escadas rolantes do shopping, às vezes onde nunca imaginaríamos. "Maus" são esses indivíduos que carregam consigo o peso de suas existências, que se sentem pormenorizados pelos que brilham mais, pelos que são mais felizes. Mentirosos, frustrados, covardes, gananciosos, rudes, pessoas cuja feiúra não se vê por fora.

Estou cansada hoje. E minha inspiração se esvaiu, como a areia das ampulhetas, à procura de um tempo que não volta mais.


domingo, setembro 20, 2009

Sonja - She-Devil with a Sword!


"Uma imagem vale mais que mil palavras", é o que se repete por aí. Eu não acredito nisso. Na minha humilde opinião, não há nada como aliar ambas, imagens e palavras. E se as palavras criam imagens, porque uma imagem não pode criar palavras?
Minha inspiração, ao escrever Sareh, foi essa imagem. Red Sonja, a guerreira hirkaniana mais célebre dos quadrinhos. E, meninas, essa mulher merece nosso respeito, apesar de ter sido desenhada por homens, apesar do apelo ao corpo feminino perfeito (na opinião deles!), pesquisem sobre a história dessa guerreira! Vale a pena!



sexta-feira, setembro 04, 2009

Sareh

Sareh


A sandália de couro cortava sua pele e depois sua carne a cada passo que dava, e os pés pareciam queimar em brasas. Longo era o caminho e imperdoável o sol: seu castigo se estendia a todos que ousavam trilhar aquela terra árida, desde a urtiga mais resistente até ela, que parecia indiferente àquele clima seco e cálido. Seu corpo vertia suor e sangue, mas se parasse para descansar, talvez não conseguisse dar cabo à viagem. As dores que sentia e o horizonte trêmulo a desafiavam, porém, ela apenas visualizava, através dos olhos de sua mente, a recompensa final. Com o diamante voltaria cavalgando em um lindo animal e beberia toda a adega de Heigh, um de seus únicos amigos ainda vivos.
Sareh. Era uma caçadora, tanto de recompensas quanto de animais e homens. Suas armas eram simples, entretanto sua força e agilidade deixavam qualquer desafiante extenuado. Muitos procuravam-na para oferecer-lhe tarefas impossíveis, pois sua fama se estendia das terras planas às colinas bárbaras. A busca pelo desconhecido, a batalha e o reconhecimento a inebriavam, era isso tudo o que a excitava.

Mesmo com tantos boatos sobre sua idade avançada, as formas de seu corpo denunciavam juventude. Os mais idosos adoravam contar histórias sobre ela nas reuniões dos anciãos. A mais famosa era a do elixir da juventude. Certa vez, numa de suas viagens a terras distantes, Sareh encontrara um elixir misterioso, e sem qualquer pista acerca de quem seria seu possuidor, levou-o ao velho alquimista de sua aldeia. Este, maravilhado e incrédulo, informara-lhe que se tratava de uma mistura milagrosa: se usado com cautela, estenderia o tempo de vida de quem o possuísse; caso contrário, poderia encurtá-lo. A partir disso, os anos não mais deixaram marcas em seu rosto, nem em seu corpo bem torneado pelas lutas de espadas. Muitas histórias eram conhecidas do povo da aldeia. Fora dali, suas aventuras se espalhavam por outros que a conheceram de alguma forma, que tiveram a honra de oferecer-lhe estadia por uma noite, dar-lhe o que comer ou beber.

Sareh pensou que poderia, pela primeira vez, estar perdida. O horizonte trêmulo não mostrava indícios de qualquer tipo de civilização ou mesmo qualquer sinal de vida. Apenas a morte a rondava, mas isso de forma alguma a assustava. Não iria voltar sem o diamante, essa era sua certeza. A dor era insuportável, mesmo para uma guerreira como ela, que já lutara com homens gigantescos, com animais ferozes e até mesmo seres que só em imaginação a maioria dos homens conseguiria desafiar. Apertava seus olhos e rangia os dentes a cada passo, mas o brilho ofuscante do sol lembrava o grande diamante Haijink, seu objetivo. Escondida por séculos nas pirâmides antigas, protegida por guardiões e magia negra, a joia lhe traria a fortuna que tanto cobiçara, pois seria muito bem paga pelo serviço. Havia uma lenda que dizia ser o diamante o portal para o Outro Lado, onde os mortos poderiam ser ressuscitados. De acordo com outra, que serviria como a Chave do Tempo e assim seu possuidor teria o poder de manipular o presente, o passado ou mesmo o futuro. Sareh não contava com isso. Muitas dessas histórias contadas pelos anciãos não passavam de entretenimento ao redor de fogueiras para homens ou rapazes em busca de algo em que acreditar. Ela mesma ria copiosamente quando lhe perguntavam se era imortal.

Não acreditava na imortalidade, nem em poderes ilimitados. Certa vez, numa luta contra um ciclope, antes deste desfalecer, arrancou-lhe o olho. Todos apostavam que se Sareh queimasse numa fogueira o olho de um ciclope, como a lenda dizia, se transformaria numa deusa. Ela não perdeu tempo, organizou todo o ritual e chamou os anciãos para que estes vissem que tal sandice não passava de uma história. Na noite seguinte, mesmo assim, as histórias sobre ela e o olho rendiam diversas teorias e muitos queriam conhecê-la para que ela realizasse seus desejos, como se realmente fosse uma divindade. Depois disso, desistiu de levar o esclarecimento ao povo. Concluiu que o poder das lendas era imensamente maior que qualquer interesse pelo conhecimento racional.

terça-feira, julho 28, 2009

Luzes da Cidade

Luzes da Cidade


O vidro do ônibus possuía uma tonalidade escura, e ela enxergava a cidade com uma luz distinta. Era final de tarde, o sol já não estava alto, o que já conferia à luminosidade um pouco de escuridão. Mas pelo vidro ela via o grande rio, as calçadas, as pessoas, tudo com aquele tom levemente pesado. Era mesmo diferente, como nunca havia visto. Talvez fossem suas idéias, que também tentavam adaptar-se às mudanças de sua vida. Resolvera dar prioridade aos assuntos de maior urgência, não aos que, embora importantes, não eram de suma importância. Assim, vendo a transformação de um elemento tão trivial – no sentido de sempre estar lá, de ser tão essencial que, aos olhos mais desatentos, parecia nem existir –se sentiu estranha. Que luz era essa? Tornava-se energizante ao iluminar os arvoredos, e deprimente ao tocar as paredes cinzas e rotas dos prédios e fábricas. Ela pensava que esta luz não poderia chegar e ela, pois se assim acontecesse, a escureceria ainda mais, a faria também deprimente.

O ônibus então sai da cidade. Chega a uma rodovia cercada de árvores, o resto de uma antiga mata. A rodovia assemelhava-se a um facão, que havia cortado a mata, machucando-a, para passarem automóveis envenenando-a com sua fumaça fétida. As árvores também estavam mudadas. Pareciam entender que ela também temia perder sua luminosidade. Mas, a um certo momento, ela parou de pensar na triste tonalidade da luz filtrada pelos vidros escuros do ônibus e procurou sentir a paz que emanava daquele verde, daquelas árvores tão antigas; estas também tentavam transmitir sua sabedoria, sua experiência com o elemento humano durante os séculos. Ela então pensou que tudo passaria, que era necessário viver mais, deixar o tempo realizar seus feitos. E deixar a tristeza passar.

Havia mais gente no ônibus. Ela ouvia, sozinha, as piadas e os risos daquelas pessoas. Alguns acabavam de sair do trabalho, outros da faculdade. O sol começara a se pôr, a luz se tornara mais alaranjada. Como gostaria de estar no lugar de um deles! No lugar de um daqueles que riam, contando histórias engraçadas sobre situações cotidianas. A tarde acabava para a noite iniciar, e a noite que estava por vir a fazia ainda mais melancólica. Não haveria quem a esperasse em casa, não haveria alguém com quem conversar, contar suas piadas, as situações engraçadas do cotidiano. Só haveria ela e alguns rostos sempre lembrados, algumas palavras ditas e não ditas.Lançou-se aos pensamentos deprimentes; lembrara-se de tempos difíceis, quando a esperança era um fio quase inexistente que sustentava a sua vontade de continuar. Tudo aconteceu tão rápido que não houve como tragar tantas mudanças. Mudanças... como é espinhoso o seu caminho! Como é doloroso adaptar-se às transformações. Para ela, todas as transformações deixaram cicatrizes, porém, sentia-se ainda machucada. Era triste olhar as marcas e deixá-las de lado, acreditar que com o tempo as marcas não mais trariam a dor, e sim lembranças, apenas lembranças. Talvez se chorasse, tudo seria mais fácil, a agonia poderia diminuir, as lágrimas, como diriam os poetas, poderiam lavar sua alma. Alma consternada, alma sem sossego. Suja, velha, rancorosa, triste alma.

A noite já era densa, havia estrelas no alto dos montes. Tentou desviar os pensamentos para contemplar as pequenas luzes faiscantes, cheias também de uma terna tristeza. Um desespero crescia dentro dela, parecia possuí-la aos poucos, mas progressivamente. As lembranças não a deixavam, o momento pelo qual passava era tão tortuoso quanto a estrada, sua garganta ardia, ela queria chorar. Mas o choro não aconteceu, e a desesperança aumentava. Qual seria a saída, como isso poderia parar? Sua cabeça dava voltas, as pessoas riam. As estrelas piscavam, não havia lua no negro que cobria a terra. Sua vontade era de gritar, gritar o mais alto que podia. Mentalizava seu grito, pois sabia que nem isso conseguiria. Todos no ônibus emanavam tranquilidade, e talvez felicidade. A felicidade dos que ignoram os males, dos que vêem uma saída sempre, dos que maquiam a realidade. Ela não, nunca mais possuiria uma fagulha dessa felicidade, pois a realidade mostrara-se cruelmente a ela. E sentia-se mal por não ser simples, como todos no ônibus.

sexta-feira, junho 19, 2009

Editorial

Parada para um humilde editorial.

Eu tinha em mente escrever um texto mais teórico sobre a nostalgia, mas acredito que irei, mais uma vez, cair num relato autobiográfico. Nostalgia é aquele sentimento estranho que nasce quando relembramos, com muito carinho, de certas fases de nossa vida, de certas pessoas, de certos lugares, de certos aromas... enfim, uma mistura de saudade com reminiscência. Eu sou uma nostálgica, admito. E acho até que já escrevi sobre isso alguma vez.

Vivi a década de oitenta, e por mais que, por causa de meu vício por filmes e músicas dessa época, eu tente reviver pequenas frações de experiências passadas em minha infância, não conseguirei. O tempo não volta. Mas sou persistente, e por causa dessa minha característica, às vezes consigo por poucos instantes relembrar e sentir, com 31, o que senti com 07,08 anos. Reviver não posso, mas como seria bom poder entrar no De Lorean...voltar lá para trás...

Lembro que nós vivíamos numa época sem luxo algum. Hoje posso ir ao mercado aqui do lado de casa (que antes não existia) e comprar uma barra de chocolate só para mim. Na época, nós fazíamos uma compra por mês, e pouco espaço do carrinho era reservado para os doces e demais besteiras que quiséssemos comprar. Mesmo assim, sinto saudades. Na escola, as crianças (é, elas podem ser mesmo muito malvadas) olhavam para os pés das outras para identificar a classe social. É claro, a marca do tênis. Os meus eram tênis bem baratinhos, que duravam pouco, mas eu usava até a sola quase descolar. Às vezes sentia raiva disso, porque, como qualquer outra criança, eu gostaria de poder me sentir incluída. Resultado: criei minha personalidade tendo como referência todos aqueles que também não tinham um tênis de marca. Comecei a ouvir rock, vestia roupas rasgadas. Quando cheguei ao ensino médio, já nem me preocupava com nada nem ninguém. E, mesmo assim, sinto falta daquele tempo.

Minha escola era enorme. Estudei no Sesi, pois meu pai sempre foi e ainda é torneiro mecânico - com muito orgulho. Por causa dele cresci com meus ideais esquerdistas, até quando a esquerda deixou de sê-la - não irei discutir política hoje, então, dando continuidade ao relato: há uma mega indústria de metalurgia aqui em minha cidade, e na década de oitenta ela passou por fases de grande ganho de capital, como também muitas crises. Esclareço isso porque, lá no Sesi, convivíamos com os filhos dos funcionários desta indústria, desde os faxineiros até os gerentes, o que significa que minha escola foi um microcosmos da própria sociedade. Engraçado lembrar que os filhos da classe desprivilegiada comiam a merenda escolar (geralmente sopas, mingaus e, em dias especiais, pão com carne moída... e era bom hein!) enquanto os filhos da classe abastada traziam lanche de casa. Eu levava lanche de casa às vezes. Isto me traz à mente a primeira lembrança que tenho da escola.

Entrei no pré em 1983. Tudo era muito novo e estranho. A professora, Tia Lu, era uma mulher de 30 e poucos anos, que descaradamente dava mais atenção aos filhos da classe abastada. Eu tinha 6 anos, e levava comigo minha lancheira, que era da Moranguinho... meus pais pagaram bem caro por ela naquela época, por isso a bendita teve que durar mais uns dois anos. Enfim, recreio, abro minha lancheirinha, com suco Ki-Suco de morango e um pão com mortadela. O pão estava meio amanhecido, então eu mordi com força mesmo, e até descer pela garganta tive que fazer uma baita ginástica maxilar... De repente, vejo um homem muito parecido com meu pai me olhando lá de fora, atrás de um pilar. Dei tchauzinho, e era mesmo ele, que horas mais tarde, em casa, deu uma bronquinha em minha mãe por ter me dado um pão tão duro... Poxa, meus olhos lacrimejam agora.

É por isso que sou uma nostálgica inevitável e irremediável. Lembrar faz bem para a alma, e a minha é tão leve que às vezes penso que ela pode se desgrudar de meu corpo facilmente!

sexta-feira, junho 05, 2009

Poema em Prosa

Poema em Prosa

Enquanto abria meus olhos, ainda no limite entre o sonho e a realidade, sentia sua presença ao meu lado, sentado, na beira da cama, seu olhar de gato fixo e enigmático. Enquanto tomava meu banho matinal, você me secava com o calor de seu corpo sob a água, fumaça. Enquanto me vestia, você me despia despudorosamente.

Saí de casa a tempo, não perdi meu ônibus. Você correu comigo. No trabalho a rotina de sempre, a vida corria também, e você me acompanhava. No almoço, enquanto a comida era servida, falei sobre você e você se fez de desentendido, acho até que ruborizou. Eu imaginava nós dois deitados naquela mesa enorme, entre pratos cheios e vazios, você entre minhas pernas... mas você não estava ali.

Um menino rapaz tomou seu lugar ao meu lado no metrô, eu cedi o meu a uma senhora idosa. Nossos dedos poderiam ter se tocado quando segurei com força o apoiador para não cair naquela parada brusca. Nossos olhares se cruzaram pela milésima vez naquela tarde.

Em casa, me distraí. Não te dei bola. A família reunida para o jantar, as histórias sobre o dia que passou, piadas, risos e conselhos me tomaram algumas horas. Quando sentei-me no sofá para assistir o jornal você me pegou desprevinida com aquele seu sorriso sem-vergonha. Mas estava decidida a não ir para a cama até que você desistisse de mim.

Entretanto, a pele, o cheiro, a saliva e o suor me queimavam por dentro. No meio dos comerciais disse boa noite a todos. Entrei em meu quarto, fechei a porta, abri as janelas. As estrelas como únicas testemunhas daquele sonho que sonhava acordada. Estendi o edredon, e debaixo dele você já me esperava, numa ânsia digna de Eros.

sexta-feira, maio 01, 2009

Nas Últimas

Nas Últimas

Uma mulher de quarenta e cinco anos já sem qualquer esperança de mudar seu destino. Não iria ganhar na loteria, não iria caminhar aos sábados de manhã, nem sair para um happy hour no final de semana. Não decoraria seu apartamento, não levaria o cachorro ao veterinário. Não faria compras no shopping, não chamaria as amigas para seu chá de cozinha. Não veria seus traços na face rosada de seu filho, não iria às missas aos domingos. Não faria amor apaixonadamente, não provaria sushi pela primeira vez. Talvez nem pudesse ver os primeiros raios do amanhecer do dia seguinte.

Tudo por causa de um único momento em que perdera o controle. Um único momento de fúria e lá estava ela, há dois anos, a cada segundo, na espera pelo fim. Injeção letal por ter assassinado aquele monstro. Foi uma pena não ter provado que ele a violentava toda noite, que ele minava, a cada vez que entrava por aquela porta de madeira rachada, suas mais íntimas fantasias e sonhos. Ela estava agora a caminho da morte por ter livrado o mundo de uma maldição, de um castigo. E aceitava sua sina, afinal, o que alguém poderia fazer por uma alma tão pobre, tão à parte da sociedade?

Os restos de suas posses, que agora não passavam de uma folha de papel e uma caneta hidrocor vermelha, se encontravam em cima de sua cama. Passava horas desenhando paisagens de forma bem infantil, e naquele momento tentava criar uma casa escondida em meio às colinas iluminada pelo luar. O vermelho não condizia com a imagem que formava em sua mente. Aquele único passeio que fizera, há muito tempo, com seu amigo de infância, ainda estava ali, guardado por algum milagre. Conseguia até sentir o cheiro do orvalho se formando com o sereno da noite. Uma noite gélida, mas que talvez traduzisse o que, para ela, fosse a felicidade.

O céu cintilava, a poeira das estrelas parecia cair sobre suas cabeças. A lua em sua completude, a grama escura que roçava sua pele feito veludo, tudo estava perfeito. Jovem, ainda tinha o costume de cultivar esperanças de um dia poder fugir daquela cidade tão pequena, tão medíocre. As pessoas a olhavam com desconfiança, nojo e medo. O único que não a maltratava era Toninho, o menino seco que morava perto do buraco onde ela vivia. Ela praticamente obrigou-o a seguí-la, prometendo-lhe um pedaço de algo na janta. Juntos então admiravam aquela pintura noturna. Nem ao menos tinham noção do que seria arte, mas para os dois jovens tão humildes, aquela noite tão bem desenhada lhes deu tanta paz no coração e tanta alegria quanto uma pintura da mais fina expressão artística poderia oferecer aos olhos dos que a apreciam.

Agora não poderia mais deixar-se às divagações. O homem com as chaves da cela chegava, a passos lentos e pesados. Sabia o que viria a seguir, e mantinha em sua mente as sensações daquela linda noite de agosto. Poderia sentir o gosto das frutas silvestres que comeram durante toda a madrugada, da água gelada que tomaram do córrego que cortava as duas colinas verde-escuras. Sentia o cheiro da liberdade entrando pelas narinas enquanto o guarda algemava suas mãos. A cada passo, lembrava-se das risadas que deram ao perceberem que a noite acabava e estavam sozinhos ainda. Que viviam aquele momento, que nada ali lhes faria mal. Sentou-se naquela cadeira fria lembrando das estrelas cadentes que viu e dos pedidos em vão. E com um sorriso em sua face tão marcada pelas amarguras da vida, relembrou os primeiros raios de sol que a aqueceram na mais perfeita noite que já teve, e deixou-se levar pelo destino.

domingo, abril 12, 2009

Um Tapete Muito Caro para a Morte

"Um tapete muito caro para a Morte"

Fim

Frederico ouvia um zumbido insuportável que crescia a cada respiração, e que culminou numa explosão. Sentiu então uma dor lascinante, aguda, rápida. Depois disso, o silêncio... o nada. A ausência de qualquer sensação, de qualquer pensamento, da noção de tempo e de espaço, a ausência dele mesmo. Nenhuma lembrança, nem frio, nem calor, nem medo. Um zumbido intenso, uma explosão e o nada. Após isso, aos poucos ele conseguia sentir seu coração batendo freneticamente. A cada batida, uma luz misteriosa e ofuscante queimava cada vez mais seus olhos. Frederico conseguiu ouvir o eco de seu próprio grito.

Acordou repentinamente em seu quarto. A confusão mental era tamanha que nem mesmo sabia quem era. Passou as mãos finas pela cabeça, da nuca ao topo, onde os fios rareavam, tocando então a testa, os olhos, até a boca e o nariz. O gosto salgado e característico em seus lábios denunciava ser sangue aquele líquido escuro e viscoso. Tomado pelo desespero e pelo terror, Frederico nem ao menos conseguia se levantar para ir ao banheiro. Vomitou ali, naquele canto em que estava jogado e inconsciente há minutos, horas ou talvez até dias. Agora gritava a plenos pulmões, precisava de alguma ajuda, de algum entendimento. O hotel estava cercado por multidões. Os fotógrafos, repórteres, jornalistas de todo o país permaneciam de pé na calçada, alguns com cadeiras dobráveis esperavam por qualquer sinal de vida vindo do quarto de Frederico. Os olhares, todos, se dirigiam à sua suíte. Naquele exato instante alguém batia fortemente em sua porta, e Frederico agradeceu aos céus. Arrastando-se, conseguiu chegar até lá e com muito esforço conseguiu abrí-la. Do lado de fora, impacientes e possuídos por um desejo não identificável, o gerente do hotel acompanhado por dois policiais armados que, sem qualquer indício de dúvida, imobilizaram-no em poucos segundos. Frederico ouviu um dos homens dizer-lhe seus direitos e, sem entender nada, foi levado até o elevador, depois ao térreo e por último para fora do hotel. Foi empurrado para dentro de uma viatura própria para levar criminosos à delegacia. Nesse intermédio, algumas frases desconexas, sem sentido algum, eram ditas primeiro pelos policiais, depois pela multidão.

Frederico se sentia perdido. Formular qualquer pergunta naquela situação lhe parecia impossível. Todavia, algumas imagens se formavam aleatoriamente, expondo-lhe talvez toda a verdade por trás de toda a sua confusão. Não acreditava em nenhuma delas. Mas ainda lhe restava o raciocínio, por mais que as emoções lutassem bravamente para sobressairem-se à razão. Frederico, perdido em meio às tais imagens, desviava-se de seu lado racional cada vez mais... começou então a falar. Os oficiais, a partir dessa novidade, calaram-se. Anotavam tudo o que saía da boca daquele que, horas antes, no lobby do hotel, perfurara por vinte vezes o estômago do barman. Seu advogado, perplexo, balançava a cabeça.
Depois de alguns dias, no tribunal, Frederico fora condenado. Seu atenuante: distúrbio mental grave.


terça-feira, março 31, 2009

Apologies

Apologies

Para todos os grandes amigos que se dispoem a ler este humilde blog, peço desculpas pela demora... tenho uns quatro contos em acabamento ainda, não publiquei o final de Madrugadas, nem de A Última Criança, que eu me lembre. Vou terminar "Um tapete.." (logo abaixo está o segundo capítulo!), prometo! Faltou-me inspiração e tempo, para ser franca.

Agradeço de coração a vocês que me escrevem de vez em quando... este é meu incentivo. Quem me conhece sabe que eu adoro ler e escrever, mas tenho um espelho de auto-crítica bem grande em casa... e na maioria das vezes acabo não publicando por isso. É, complexo de inferioridade, coisa de anos.

Quanto à temática do blog, prefiro não me ater a isso. Cada vez que escrevo tento expor as entranhas de alguém, procuro não ser repetitiva (apesar de já terem me falado que escrevo muito sobre casais que não dão certo, mas eu discordo...rs )

Ah, não estou ainda usando as novas regras ortográficas... vou escrever sobre isso ainda. Que falta do que fazer, hein, galera da Academia??

Enfim, muito obrigada de novo! Espero poder escrever com mais constância! Ultimamente as aulas me consomem, as provas me sobrecarregam, as costas arqueam, mas escrever é como fazer terapia, me alivia. Só queria poder escrever bem o suficiente para que meus amigos consigam se identificar com essas criaturas doidas que sofrem, que se machucam ( e machucam os outros), que vivem.

É isso!

Um Tapete Muito Caro para a Morte

"Um tapete muito caro para a Morte"

(parte II)

Ancorou-se na batente da porta, os olhos lacrimejaram, seu estômago parecia petrificado. Em um único gesto afastou o rapaz e entrou no elevador. Seus olhos saíram do chão e num único segundo encontraram os do jovem, e seu olhar talvez dizesse mais que qualquer palavra. A porta de aço fechou-se e Frederico finalmente estava só. Sua garganta ardia. A sede era sim de justiça, mas ainda maior era sua vontade de engolir algo que o acordasse, ou que acordasse nele.

O lobby do hotel ficava no subsolo, e o bar era iluminado por luzes vermelhas, algumas delas piscavam. Não contou os passos que faltavam para chegar ao barman, entretanto, cada vez que seus pés encostavam o chão, sua garganta secava um pouco mais. As pessoas que riam, ao vê-lo adentrar o bar, repentinamente se transformavam. Os rostos se tornaram hostis. Frederico precisava muito daquele whisky on the rocks.

Ao sentar-se num daqueles bancos altos, fitou o atendente. Fez o pedido e, já preparado, aguardava pela bebida sem muita paciência. O barman escondia um sorriso no canto dos lábios, e isto o agradou. Finalmente conseguira uma dose, e o melhor, dupla - cortesia do hotel, foi o que pensou. A garganta já não doía mais, a sede já não machucava. O ar agora parecia invadir seus pulmões violentamente, respirava de forma profunda e pausada, expulsava o ar da mesma forma como se expirasse seus fracassos, como se algo que o ferisse por dentro estivesse saindo pelas narinas. Mais uma dose, por favor!

As luzes vermelhas piscavam cada vez mais rápido, os risos voltavam aos poucos a encher o local de uma fingida alegria. O barman era o único cujo olhar não era decifrável: ao mesmo tempo, acolhedor e irônico. Mas Frederico preferia não dizer palavra. Algo em seu estômago o incomodava, e não era ansiedade. Poderia ser o whisky, não bebia há algum tempo. Depois que sua vida se tornara uma absurda sucessão de dias tediosos, resolvera se anestesiar de outra forma: devorava páginas e páginas de histórias que outras pessoas escreviam.

O último gole caiu como um calcário pontiagudo. Imagens de uma moça linda, realmente linda, se formavam em sua mente. Mosaicos de lembranças remotas, flashes que faziam seus olhos lacrimejarem de tristeza. As luzes vermelhas se misturavam aos espasmos, sangue por toda parte, gritos e risos.

(continua...)

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Um Tapete Muito Caro para a Morte

"Um tapete muito caro para a Morte"

"A vida sempre dá voltas", é o que dizem. E naquele momento Frederico não pensava direito, sua vista embaçava, suas mãos tremiam. Resolveu fechar a porta para os flashes e tomar um banho, quem sabe não acordaria daquele pesadelo...infelizmente, para ele, era a pura realidade. Em quatro dias sua vida de bancário se transformara numa novela barata e seu rosto estampava manchetes absurdas nos jornais do país. O chuveiro funcionava bem naquele hotel, a ducha de água fria estourava em sua cabeça e ele queria muito acreditar que a água que corria por seu corpo poderia lavar seu espírito. Só que ele não acreditava mais em nada. Apenas confiava no trabalho de seu advogado.
Arlete era sua esposa, namoraram por quatro anos, casaram-se na Igreja. A lua-de-mel foi em grande estilo, foram para as Ilhas Caribenhas, tomaram muita tequila e fizeram todas as loucuras que puderam. A vida que tinham juntos, entretanto, não era feliz. Arlete era ambiciosa demais, não se contentava com seu emprego de secretária executiva de uma grande multinacional. Queria mais, queria ser rica! Para ela, Frederico era um bunda-mole. Conformista, simplório, não tinha grandes objetivos nem grandes sonhos. Dentro de alguns anos, nem mesmo se sentavam à mesa para comer. Não tardou muito, camas separadas. Arlete tinha planos de carreira, começou a chegar tarde da noite devido às reuniões com seu chefe, e Frederico nem sua falta sentia mais. Reiniciara um velho hábito seu, o de ler. Naquela fatídica noite, era "Crime e Castigo" que descansava em seu criado-mudo, aberto em uma determinada página, quando Arlete bateu a porta da sala e jogou seus sapatos ao alto, acordando-o com suas altas gargalhadas. No limiar entre seus sonhos e a realidade, ouviu um misto de risos e gritos. E um último som o fez deixar de vez a areia de Morpheus para lidar com uma nada prazerosa cena de sua realidade patética: a de sua mulher morta no meio da sala, cujo sangue manchava o tapete caro e o piso de madeira dos quais ela tanto se orgulhava quando viva. Assim mesmo, Frederico não chorou. Mas também não riu.
Já eram dez da noite. O hotel estava lotado de fotógrafos. A manchete do dia era "O empresário Noah Fujissan nega qualquer ligação com secretária". Mais uma sessão de interrogatório, mais um dia de especulações. "Arlete não fora apenas alvo de um tiro, mas sim de um marido violento e vingativo"; "A secretária teria envolvimento extra-conjugal com o maior empresário do mercado de ações do país"; "Frederico Nunes está sendo acusado de um crime que não cometera": naquela semana os jornais venderam mais que cerveja. Um pouco mais leve, saiu do banheiro. Seu advogado faria um bom trabalho, era um antigo amigo seu que conseguira se formar e alcançara o sucesso e o reconhecimento que ele, Frederico, tanto queria. Não por Arlete. Arlete só o fizera ver o quanto ele era desnecessário. Seus defeitos o faziam se sentir pesado demais, sua vontade de crescer diminuía mais e mais toda vez que ela vinha com sua ladainha.
A sessão do dia seguinte seria definitiva. Mais provas surgiam, mais evidências de que ele seria salvo da autoria do crime. Os jornais não diziam isso, mas ele sabia que tudo correria bem. O mais difícil já havia passado, afinal, viver preso numa cela seria até melhor do que continuar vivendo como se uma corda o apertasse o pescoço todos os dias. Mas agora, tomar um trago no bar do hotel não seria má ideia. Abriu a porta. Um flash quase o cega.
(continua...)

domingo, dezembro 28, 2008

O Cemitério Particular

O Cemitério Particular

Cinco deles estavam na sala, que era suja e cheirava a ratos e comida podre. Nas paredes, um papel amarelado. Poderiam ser vistas algumas flores já sem cor estampadas naquele material tão velho e gasto e os móveis teriam algum valor se estivessem em bom estado, pois eram relíquias de quase dois séculos. Mas os cinco não queriam luxo algum. Aliás, aquele lugar era ideal, pois ninguém mais visitava a velha mansão desde que os últimos inquilinos se mudaram. Fazia já algum tempo.

Riam muito os cinco. Um era bem cabeludo, com olhos já perdidos. Os outros pareciam muito entre si, cabelos ensebados e roupas rotas. Acenderam um e outro baseado para dar início à noite, contavam piadas sem graça, riam. Os quartos vazios ecoavam os risos e muitas vezes os cinco pensaram ter ouvido sons diferentes, e deveriam ter prestado mais atenção.

Picos de agulha. Silêncios cortados por suspiros e gemidos. Os cinco viam vultos por entre as formas criadas pela fogueira improvisada, mas a crença e a espera pelas alucinações substituíam qualquer temor. Um vento gélido acariciou-lhes a face, mas eles não sentiram nada. Num determinado instante, não sabiam qual, pois o tempo não era medido em segundos, minutos ou horas, algo mudou. O quarto ainda continuava o mesmo, entretanto. Os cinco se deram conta de que alguém os vigiava, e não tinha boas intenções. Quiseram pegar suas coisas e sair, porém, no estado em que estavam parecia impossível qualquer movimento.
O quarto não era mais o mesmo. Os risos despertaram os residentes da mansão, o que não acontecia há décadas. Os espíritos de pessoas gananciosas demais para se desfazerem de seus bens passeavam entre os rapazes, que agora sentiam suas presenças. As sombras do quarto se tornavam cada vez mais macabras, ora distorcidas, ora demoníacas demais. A sensação dos viventes era comparável à de um gelo passeando pelos espaços entre as costelas. Num ímpeto, um deles se levanta e é seguido pelos outros quatro. Caminham sem rumo, o medo já os impedia de correr, precisavam escorar-se nas paredes que agora eram frias e cheiravam a carne podre.
Chegam todos juntos a um outro cômodo, uma sala aparentemente. Se antes o sentimento era de medo, agora tratava-se de desconsolo e tristeza. Seus corações batiam freneticamente, não conseguiram dar três passos em direção aos móveis que ali existiam, saíram imediatamente de lá e caminharam, juntos, ao quintal da mansão. Andavam de mãos dadas e um deles chorava, pensando em sua casa e em sua mãe. Todos os outros quatro pensavam na morte.
O quintal se enchia dos sons de morcegos e pássaros noturnos. Mas isto não era o pior. Mal tiveram tempo para avaliar o lugar, descobriram lápides e um arco onde se lia a palavra "Zoo" em metal enferrujado. A paisagem desoladora incluía algumas árvores secas, muito mato rasteiro e outros sinais de abandono. Era um grande mausoléu. Mas uma lápide em especial se destacava das demais, era enorme, e parecia haver ao lado desta um grande buraco. Automaticamente, os cinco se dirigiram até lá, seus pés se moviam, mas seus corpos eram puro concreto. Chegaram perto, todavia, não tiveram tempo para nada dizer ou fazer, já que um grande animal se aproximava. Não parecia ser um lobo, não parecia ser um gato, seus olhos faíscavam e seus dentes se preparavam para atacar a qualquer momento. O animal era guiado por alguns dos espíritos. Ninguém disse nada, ninguém gritou, apenas o que se ouvia era o som que o animal emitia, que não era identificável.
O buraco agora havia aumentado. Os cinco não tinham outra saída, e outros animais iguais ao primeiro se aproximavam. Não se sabe se eles caíram no grande halo ou se estavam alucinados demais. Os cinco acordaram no primeiro quarto, a fogueira apagada. Obviamente, da mansão saíram, aos gritos. Um único riso se ouvia, ao longe, enquanto os amigos dobravam a esquina daquela mansão tão antiga quanto a própria cidade em que viviam. Era um riso apenas.

domingo, dezembro 21, 2008

Sobre Caixas e Descarregos

Sobre caixas e descarregos

Queria poder encontrar um meio mais fácil de encarar a realidade que parecia ter dentes mais afiados a cada segundo que se passava. No quarto, agora, só os pôsteres colados há décadas atrás, de bandas que já não mais existem. Abriu seu diário: quanta bobagem! Como os adolescentes são mesquinhos e egocêntricos, pensou. Se fosse levar a sério todas aquelas reclamações, qualquer um acreditaria que ele teria sido o rapaz mais infeliz do mundo. Não poderia equiparar sua juventude tão complicada e paradoxalmente tão simples à vida que levava agora. Era feliz naqueles tempos, mas não conseguia ver... é, os hormônios talvez nos ceguem também.

O pior ainda estaria por vir. Arrumar a papelada toda, reencontrar aquela gente. Adentrou o quarto, começou a encaixotar seus pertences. Nada daquilo serviria pra muita coisa, mas deixar tudo lá, às traças, seria errado. Não queria também que o próximo morador da casa tivesse qualquer impressão sobre ele, afinal, ninguém o conhecia de verdade. Nem ele mesmo saberia dizer quem era. Muitos foram os que tentaram levá-lo à terapia, ou melhor, psicoterapia, mas não acreditava nisso. Quando queria desabafar um pouco, seu cachorro Lex era todo ouvidos. O cão, sempre sentado, com as orelhas baixas, parecia, às vezes, aconselhá-lo: "Que tal se você fosse até lá e lhe contasse tudo isso que me disse? Acredito que toda a situação se resolveria rapidamente. Ah, mas eu havia me esquecido... você é um covarde!"

O último carrinho na caixa. O último sinal de que um dia havia vida naquele quarto. Um último suspiro e então ele se dirigiu à porta. Deu uma última olhada, respirou aliviado e fechou-a. Desceu as escadas pensando no dia difícil que teria pela frente. Papéis, pessoas medíocres. Entrou no carro e deixou as caixas no banco de trás. Não olhou mais para elas. Queria apenas dirigir e pensar um pouco no que iria fazer a partir dali, mas nenhum pensamento lhe vinha à mente. Apenas uma sensação de desesperança e medo. Mas, o que cargas d'agua faria com tudo aquilo? Parou o carro e olhou para trás novamente, encarando as caixas. Não faria sentido carregar mais peso, pensou. Virou-se para frente, no espelho retrovisor fitou seus olhos por um momento e ele então encontrou um jeito de descarregar-se. Seguiu até a ponte do rio que cortava a cidade, chamado de Rio das Almas, sentindo-se cada vez mais leve. Desceu do carro, pegou as caixas e jogou-as sem nem ao menos olhar para trás. Apenas jogou as caixas. E assim seguiu seu caminho, e sabia que muito ainda tinha que ser feito. Muitas outras caixas deveriam ser jogadas no Rio das Almas...

sábado, novembro 15, 2008

Parênteses

Só um parênteses

Engraçado... sinto-me como o personagem de uma estória que li e que adoro. Contava sobre a triste sina de um escritor que cometera um grande equívoco: escravizou uma musa grega para que ela o enchesse de idéias. Escreveu muitos livros, todos fantásticos. Mas essa musa fora, em outros tempos, a esposa do Senhor dos Sonhos. E este a vinga, retirando-a do poder do escritor e, como castigo, condenara-o a ter idéias a todo tempo, e eram tantas, tão boas, que ele acabou por mutilar suas próprias mãos: era imperativo que conseguisse registrar o máximo de idéias possível. Então, passou a escrevê-las com os dedos. A sangue.
Bom, é como eu disse. Muitas idéias... mas ao me sentar em frente ao computador, enfrentar essa tela branca, nada acontece. Ansiedade demais. Medo demais.
Não farei o balanço deste ano. Posso dizer, isso sim, que foi um bom ano: renasci como uma fênix. Reencontrei-me. Agora sei exatamente quem sou e o que quero, mas principalmente, o que não quero. Aprendi muito. Obrigada, Destino, pelos caminhos tortuosos de seu labirinto.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Curto e Grosso

Curto e Grosso

Os novos tempos requerem muita paciência. Você quer se matar aos poucos, sentir-se vivo, à vontade, mas até mesmo essa escolha tiraram de você. O amor virou novela, a injustiça em todos os níveis se tornou a pílula que tomamos todos os dias para que não nos tornemos loucos. Sim, porque a vontade de fazer justiça acaba levando à loucura. A paciência se tornou o nosso ópio. Seja natural... faça de conta que é a morena do comercial ou o galã burro.
Tempo, que se esvai como areia entre os dedos, a mesma areia que nos faz adormecer. Pelo menos alguns de nós, em nossos sonhos, conseguimos tornar a vida menos amarga. Por que o café da bomboniere parece ser transgênico, o sol escaldante demais, a comida não tem mais gosto algum e as noites não têm mais estrelas? Não somos mais os mesmos, os novos tempos nos tornaram seres confusos. Agora respiramos a fumaça dos carros, símbolos de poder. Agora desejamos uma falsa paz, uma paz comprada pelo bem-estar das televisões lcds, dos ipods, dos laptops e iphones. O homem das cavernas evoluiu, afinal... agora somos os novos homens. Podemos criar um robô que faça tudo, podemos viajar pra Lua, podemos... podemos. Hoje muitos preferem as mentiras. Mentir é mais fácil. Enganar-se. Fugir. Para bem longe, para outra cidade, uma cidade igual àquela do novo filme que estreou na semana passada.
Cuspa para fora o fel que cobre seu coração... abra seus olhos, deixe-os abertos, use palitos se necessário. Não ignore seus sentidos mais primitivos. Falte um dia no trabalho. Não deixe os novos tempos embrutecerem sua alma, não se deixe voltar à caverna escura. Pois, a partir de agora, tudo indica que nos tornaremos canibais... acabaremos nos devorando. Darwinismo puro. O mais forte sobreviverá.