domingo, julho 04, 2010

A Estrada

 Num final de tarde, uma festa. A expectativa era de que fosse encontrar alguém em meio à multidão que o fizesse sentir-se vivo e importante, então acelerava com vontade, ouvindo o motor rosnando como um animal. Ligou o rádio para distrair-se e levantar seu astral um pouco mais, e um rock n' roll conhecido tomou conta do seu corpo e de sua mente. Agora seguia confiante e naquela noite, quem sabe, teria alguma diversão.

Ao chegar no local, não conseguia estacionar o possante. Muitos já haviam chegado horas antes, e nenhuma vaga sequer havia sobrado por perto. Os que apareciam naquele horário também acompanhavam uma romaria em busca de um único espaço em meio à aglomeração de automóveis. Não haveria outro jeito: teria que andar um pouco mais para chegar à festa, pois o único lugar que havia encontrado estava a mais ou menos quinhentos metros de distância. Mas ele estava bem vestido, usava seu melhor perfume e, especialmente naquele momento, se sentia poderoso.

A festa já estava lotada. Uma ânsia por ver gente conhecida se apoderou dele, cujos olhos investigavam milimetricamente cada canto da chácara em busca de um outro olhar, de um sorriso. Entretanto, até ali nada o alegrava. Parecia que aquela noite seria de espera e de procura, duas palavras que, em seu vocabulário, quase não possuíam importância. Na verdade, era sempre ele quem era esperado e procurado, não fazia sentido algum que a situação tivesse se invertido.

Uma hora se passara desde o momento em que pusera os pés na terra batida daquela chácara. Já não estava animado, sentia o coração disparado em seu peito e as mãos gélidas, sinal de que o nervosismo e a ansiedade já o haviam alcançado. Uma hora depois um conhecido parou ao seu lado e travava, casualmente, uma conversa com ele, outros passeavam em meio à festa, exibiam uma tranquilidade digna de anjos assexuados. Ele não. Queria sentir-se vivo, e não era o que ocorria, pelo contrário, parecia que naquele lugar as únicas cores eram o branco, o preto e o cinza. As músicas não passavam de ruídos, as pessoas, simples vultos. 

Resolvera sair à francesa. Agora seguiria rumo à casa de uma amiga com quem teria alguma diversão, pelo menos sempre conseguia algo quando precisava. O motor roncava, agora mais furioso. A música, mais alta. Outros veículos pareciam competir com o dele numa velocidade incompatível ao limite de velocidade. Já estava chegando, enfim. A casa, sempre com suas luzes acesas, agora se encontrava em meio a uma escuridão intimidadora. Não poderia ser, mas sim. Não havia ninguém, ou ela poderia estar dormindo; resolveu tocar a campainha. Uma voz também conhecida atendeu, e perguntado sobre a dona da casa, respondera que ela não estava ali.

Mais uma vez, entrou no carro. Agora seus pés adquiriram um peso extraordinário, e o acelerador era sua vítima. O motor, colérico, rangia como os dentes de seu motorista. A estrada agora era sua companhia, única. Ela o entendia, ela sabia o que se passava ali dentro dele. As faixas passavam tão rapidamente que pareciam contínuas, indicando-lhe o caminho de casa. O rádio estava ligado, mas a única música que ouvia era a de seu motor, juntamente com o bater de seu coração, já cansado de tanta falta de sorte. Pareciam ritmados, o motor, o coração. Ele mesmo se sentia parte do automóvel, como se fossem um único ser, que corria pela estrada em busca de libertação. Uma curva apareceu para uní-los e, ao contorná-la, por um momento o motor e o coração pararam para ouvir o gritar dos pneus. Agora nada mais importava, nem a companhia, nem as roupas, nem o perfume. Só a estrada poderia saber.

sábado, junho 26, 2010

Uma manhã, uma tarde e uma noite

Uma manhã, uma tarde e uma noite

Marília já acordava correndo. O despertador gritava em cima do criado-mudo, sem dó. Ela sonhava que cavalgava em um cavalo preto, altivo, e o vento que bagunçava seus cachos da cor do sol era o mesmo que refrescava sua pele que, inexplicavelmente, ardia em brasas, sem que ela sentisse qualquer dor. Ao contrário, a sensação era de prazer e felicidade, pelo menos até o som estridente do relógio fazê-la acordar sobressaltada. Seu coração disparava assim como os segundos, que movimentavam o ponteirinho menor com sua urgência e rapidez.

O cobertor estava na temperatura certa, mas o dia apenas começava. Lembrou-se de seu superior, o quanto estava agitado nas últimas semanas, cobrando por resultados. A pressão psicológica de Nunes a atingia em cheio, e por mais que se esforçasse, nada era bom o suficiente. A cada dia uma nova cobrança, uma nova necessidade. E os negócios não iam nada mal: a curva do balanço mostrava que as vendas cresciam. Marília desejava descansar numa praia, levar seu companheiro Max para correr e pular as ondas... era seu melhor amigo, e assim que percebeu que ela acordara, não hesitou por momento algum em saltar na cama e, com aquela alegria própria, demonstrar-lhe suas expectativas, pois para ele seria um dia fabuloso!

Depois de abraçar Max com entusiasmo, afinal, qualquer coração gelado se desfaleceria na companhia daquele lindo e feliz labrador, Marília segue em direção ao banheiro e, mesmo a contragosto, se livra de sua roupa de dormir. As primeiras gotas do chuveiro descem como agulhas de gelo, ferindo sua pele que, até aquele momento, estava quente. Em alguns minutos seus pensamentos tomam sua atenção por completo: tudo o que teria que ser feito até a hora do almoço, como sempre, Marília retomava, ponto a ponto, em sua mente. Ao terminar o banho já se sentia sobrecarregada. Mas tinha um cargo, ganhava por ele, independentemente de Nunes, de Renata - a grande puxa-saco da agência - e de qualquer outro colega de trabalho, ela ainda agradecia por tê-lo.

Pão com geléia para ela, ração para Max. Suco para ela, água para Max. Chaves do carro para ela, a solidão para Max.

Ao trocar a marcha e pisar no acelerador, Marília já se sentia em seu lugar, seguiria sua rotina. O celular toca, só tem tempo de verificar quem seria o ser que ligava àquele horário. Nunes. Aquele seria mais um dia cheio, e teria problemas...

sexta-feira, junho 25, 2010

O Bater das Asas da Borboleta - O Caos e os Vômitos

Às vezes tenho a impressão de que sou um alvo fácil das desumanidades. Há sempre algum problema ou alguém que cria um problema para a minha cabeça! Como diriam meus alunos, "fala sério"!

Há décadas atrás (tempo que passa cada vez mais rápido), quase nada me atormentava. Seriam problemas tão pequenos que não mereciam tanta atenção, ou eu havia desenvolvido uma capa de proteção aos pensamentos insistentes que levam ao desânimo? Ou seriam as responsabilidades que crescem feito bolo de mãe ... humm... como era fácil a vida daquela pequena ruivinha sardenta, que ocupava sua mente com quadrinhos do Walt Disney e comia bolo de cenoura com granulado por cima sem se preocupar com o dia seguinte ou com as calorias do bolo... 

Sou muito tranquila, me sinto feliz e abençoada. Mas quanto mais me sinto livre e em paz, mais problemas aparecem, do nada, sem explicação. Não sei se acontece com mais gente, mas é só eu começar a elogiar uma pessoa para ela me decepcionar, é só me sentir segura em relação a algo para que esse algo entre em turbulência. Talvez seja um teste: vamos ver até onde ela aguenta segurar aquele sorriso, até quando ela vai distribuir tantos pensamentos encorajadores... mais uma vez recorro à sabedoria de meus alunos: "tenso!"

Aprendi,  nesses últimos tempos, a ser muito mais paciente. Quero compartilhar isso aqui, hoje. A paciência é uma dádiva, pois a paz que tanto se busca não é encontrada sem muita espera. Nós somos seres que esperam. Esperamos 4 anos para torcer para o Brasil na Copa (ah, obrigada pessoal do 3o ano pelas risadas e pelo churrasco de hoje!), esperamos por 9 meses aquele serzinho(a) que mudará por completo a nossa vida, esperamos pelo vestibular, na fila do banco, na fila do caixa de supermercado, esperamos o tempo que for para encontrar a nossa cara-metade, esperamos até pela morte... 

Há como esperar sem paciência? De maneira alguma. Mas tem muita gente impaciente por aí. E o pior, um problema pessoal (gerado, muitas vezes, pela impaciência) pode acabar criando problemas coletivos. É a teoria do caos funcionando aqui: uma pessoa acorda de mal humor numa bela manhã ensolarada, levanta-se e segue sua rotina matinal como se cada passo ou cada palavra se transformasse num martírio, um castigo. Chega no trabalho e escolhe (consciente ou inconscientemente) algum inocente que deverá pagar pelo pato. Na primeira chance que tiver, o mal humor em pessoa fará tremer a terra e os céus caírem na cabeça desse bendito ser que, sabe-se lá, acordou feliz naquela manhã, pensando numa forma de fazer seu ambiente de trabalho tornar-se cada vez mais agradável.

Reação em cadeia: o ser Pollyana  em questão poderá perder a vontade de tornar o mundo mais cor-de-rosa e voltar-se contra os seus colegas de trabalho, criar situações constrangedoras. Poderá ser uma pedra no sapato de todo mundo. Tudo porque alguém não cultivou a paciência e não procurou solucionar seus problemas interiores antes de vomitar palavras rudes e cruéis em cima dos outros. E quem é que limpa toda essa sujeirada?

Enfim... sou paciente. Espero pela solução dos problemas, mas aprendi isso a duras penas. As borboletas batem as asas na Ásia e os ventos acabam formando furacões na América, não é? Não sei, mas um pouco de gentileza ou de atenção no trato com seres humanos pode mudar o dia de alguém, disso tenho certeza. Eu desejo que todos vocês possam desfrutar da paz interior, e isso pode ser difícil quando lidamos com brutamontes ou com cobras sibilantes que se arrastam e mordem pelas costas. 

Ai, coitadinha da menininha ruiva... se ela soubesse o que iria enfrentar mais à frente...




terça-feira, abril 27, 2010

O Vinho e a Seda


Aconteceu numa festa. Embora ambos se encontrassem em várias delas, somente nesta o desejo se consumou. Ele, perfeito. Ela, única. A admiração era mútua, invejavam-se até, pois cada um, à sua maneira, possuía algum dom especial. Além disso, cada vez que seus olhares se cruzavam, uma certa excitação manifestava-se. Alexia possuía o dom de atrair a atenção alheia sem esforço. Era eloquente, espirituosa, sensual, assim como Tom, que nunca deixava de ser percebido em qualquer recinto. Gostava de contar algumas de suas experiências pessoais, mas também não somente isto. Qualquer manifestação artística a seduzia, tanto pintura quanto cinema, literatura, música. Toda pessoa que se aproximasse era tomada de assalto por alguma de suas divagações, impossível ser mais autêntica. De outro lado, ele. Sempre atento às pautas, sabia como discutir sobre qualquer assunto, mas principalmente sobre música e cinema, objetos de seu desejo. Era alguém especial, culto e sem qualquer vestígio de pedantismo. Entretanto, nele, algo era suspeito. Algum estranho brilho no olhar. Ela já percebera, porém pensava ser algo de sua imaginação.

A festa. Como tantas outras, muita bebida e muita música, tudo aquilo que não poderia faltar num bom encontro entre amigos. A bebida variava entre bons e caros vinhos, champagne e vodca. O grupo quase nunca se alterava. Raro era haver alguém desconhecido pela maioria, porém, obviamente, a companhia de rostos notáveis não era, de forma alguma, proibida. A música, heavy metal, fornecia o ritmo à festa, aos movimentos dos corpos. Alguns riam alto, muitas vezes não pela piada proferida, mas sim, como a confirmar o êxito da reunião; outros, pusilânimes, limitavam-se a apenas sorrir, com o mesmo intuito. Às vezes um grupo se ausentava, por motivos próprios. Voltavam, após algum tempo. Havia também os que discutiam atualidades, política. Ela nunca se manifestava em relação a tais assuntos, e quando a conversa tomava tal direcionamento, sempre optava por não talhá-la. Na presente festa isto aconteceu, e então Alexia procurou uma garrafa de vinho, desejava embebedar-se. A garrafa estava cheia, pôs a bebida em sua taça. Mas tal ato não fora feito às pressas, e sim, voluptuosamente; ao segurar o gargalo, ao despejar o líquido. E tal voluptuosidade lhe era intrínseca. Ele, estonteado, estava parado ao lado de uma pilastra, observando-a. 

Após algumas tantas taças, ela toma a direção ao banheiro. Numa esbarrada acidental, deixa cair um pouco de vinho em seu vestido, que era de seda, num tom cinza. Maldito vinho! Ele, prestativo, vai ajudá-la. Sugere que seja arranjada uma taça de água morna para eliminar a mancha. Vão à cozinha, a chama do fogão é acesa. A bebida começa a deixá-la inspirada, sua pulsação provavelmente estava acelerada, mas tais reações não poderiam ser percebidas por Tom, visto que apenas secretamente ela ansiava por aquele momento. Então dialogaram sobre a festa, sobre o pequeno acidente e a falta de jeito dela. Sem perder a chance ele a elogia, dizendo que o incidente a deixara rubra e isso havia aumentado seu charme. Seus olhos cruzam-se, e ao mesmo tempo analisam-se. E havia aquele brilho.
 
O tempo havia parado. Nada mais aconteceu. A música, os risos, o tilintar dos gelos nos copos de vodca. Tudo. O que restara eram dois pares de olhos fixos. Ela não conseguia livrar-se da imensa vontade de tocá-lo, beijá-lo. Implorava pela aproximação de ambos os lábios, pela ofegante sincronia de um beijo. Ele já havia compreendido a súplica. Com uma das mãos tocou seus lábios com tal sutileza, com tal veneração, que ela quase sucumbiu. Seus sentidos a deixavam perdida, entretanto, havia algo. O olhar, talvez. Um certo brilho. Com a outra mão, ele tocou sua nuca, causando um certo arrepio em sua espinha, e até um certo desconforto. Estava dominando-a. E ela também já havia compreendido. Aquele olhar que a aliciava agora a desesperava. Os traços de um rosto antes admirado e que agora tomava formas aterrorizantes. Ela não conseguia mover-se, e ele deixava cada vez mais o brilho de seus olhos figurar-se em um brilho assustador. A lascívia misturava-se ao medo. Um medo que a excitava, mas terrífico. Nada mais ela poderia fazer. Estava imóvel, domada. Cerrou os olhos e esperou o toque, que não demorou. Os lábios se uniram, e ela sentiu como se estivesse potencialmente sensível, então desvaneceu.. mas segundos antes de precipitar-se, olhou para ele. Entendeu o brilho daqueles olhos. Tudo foi explicado, e nada mais seria possível. Era o fim, e já estava feito. O desespero não mais a alcançava. A serenidade agora era sua companheira.

Um breve comentário a respeito do agora

A volta do Editorial


Passados alguns meses já, senti falta dessa minha antiga e eficiente forma de desabafo. Muito aconteceu até este momento, e se fosse dar conta de todos os acontecimentos, acredito que não seria possível nesse humilde espaço que me gratifica muito possuir. Mas vamos ao que interessa: as mudanças, pequeninas ou grandiosas, são elas que nos movem e que nos espreitam diariamente, esperando o momento oportuno de se manifestarem.

A borboleta que antes era lagarta, a rã que em seu passado recente ainda era girino... faço minhas as palavras de Raulzito: podemos nos considerar metamorfoses ambulantes. Outro dia senti-me estranha, pois nos últimos meses muito do que antes era de meu interesse, hoje se tornou superficial. Pensem: o que é mais importante hoje? O hoje! Entretanto, só notei essa verdade há pouco, afinal, sempre fui uma sonhadora incorrigível... o problema dos sonhadores é divagar a respeito do amanhã e acabar não se importando tanto com o agora. E o agora... que beleza tem!

O sonho virou realidade. Que ótimo... e o próximo passo? O que projetar? Minha vida posso definir como um turbilhão, o olho do furacão. Quando acredito que o vento forte passou e a tranquilidade encontrou seu lugar, a paz momentânea logo se transforma novamente. E como isso me atordoa, me abate, faz de mim um fantoche do acaso! Os pensamentos que se tornam confusos, a pele que se umedece com o suor brotando pelas têmporas...entretanto, meus amigos... esta sou eu e esta minha realidade.

Prefiro acreditar que a graça de estar viva é exatamente essa: o imprevisto, que traz também boas mudanças. Primeiro seguem-se os segundos e minutos, que tomam seus lugares nas tarefas rotineiras. As horas, que se consomem... os dias, uns mais amenos, outros tão extenuantes. Quando se olha para trás, uma semana se foi... e com ela as lembranças recentes dos dias mais marcantes... e as semanas também se consomem, como fossem a chama breve de um fósforo riscado. Ah, o tempo... que loucura pensar nisso!

Fato: o tempo transforma até mesmo aquilo que acreditamos ser eterno, porque a eternidade é uma ideia.

Não passei uma borracha no passado, ainda não. Há algumas cenas que ainda estão bem frescas em minha memória, e estas preservo porque elas me preservam também. As experiências que nos fazem mais fortes e nos forjam são as mais importantes, e não devem ser apagadas de forma alguma. Por mais duras que sejam. Porém, aos que tiveram o interesse e o tempo para ler meus antigos posts, devo uma explicação: uma mudança se fez em mim. Não cultuo mais o passado, não quero mais viver nostalgias da juventude, e isso merece ser comemorado!

Os próximos segundos serão dedicados ao meu trabalho, que também consumirá os minutos e horas seguintes. É disto que tenho certeza, apenas disso. Os próximos dias, semanas e meses serão, com prazer, aguardados pacientemente. Nada mais importante do que o agora, o presente do destino... sim, o destino nos presenteia com o agora.

Então, abriremos esse presente com aquela alegria infantil, rasgaremos o papel colorido, os nossos olhos saltados frente ao inesperado! E eu desejo de coração que todos vocês sintam, como eu sinto, a mais simples felicidade: a de apenas estar.

terça-feira, março 30, 2010

Para você, meu coração

Tuas mãos

Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.

Pablo Neruda

terça-feira, janeiro 05, 2010

O sopro do vento de inverno


   Aquela com certeza era uma tarde de inverno. Um vento congelante cortou sua face, seus olhos estavam vermelhos e as pálpebras se apertavam para que a rajada não trouxesse algum grão de areia. Ele não apreciava o tempo frio, na verdade detestava esse período do ano, quando apenas via mantas, cachecóis e tecidos grossos com um par de olhos andando pelas ruas. O banho, o amanhecer, as noites, tudo lhe parecia desconfortável, e até costumes habituais tornavam-se quase que impraticáveis. Havia alguns ganhos, como o vinho perto da lareira e o café com charuto, que até melhoravam com o frio intenso. Mas isso, para ele nada era se comparado à sua roupa leve, ao malte gelado, ao sol convidativo de uma tarde entre amigos. Um bom mergulho, um beijo salgado pelo mar. Não nascera no inverno, e desde essa época, odiava-o.


   Nesse momento, o problema, entretanto, era a noite. A sopa, o vinho, o café o confortavam até alguns minutos antes de deitar-se. Mas ao sentir a cama fria, ele amaldiçoava a estação, principalmente por não ter uma boa companhia. Pensava ele que as noites eram demasiadamente longas, e poderiam ser melhor aproveitadas. Como não conseguia dormir, levantava-se e caminhava entre os cômodos de sua mansão, degustando seu fumo levemente adocicado. Abria as janelas e admirava o breu estrelado, a lua e os estranhos visitantes noturnos que insistiam em acasalar-se em seu teto. A solidão não era sua inimiga, mas ao juntar-se ao clima invernal, quase pareciam amantes, e em nenhuma hipótese essa comunhão lhe daria algum prazer, ao contrário, o fazia pensar em praticar seu lado mais libidinoso, cometer alguma loucura como nos tempos de sua juventude, tanta volúpia e tanto desejo transbordavam de sua pele a ponto de ser sentenciado a queimar-se no inferno. Era sim, no inferno, no calor de suas chamas, na punição de seus crimes, na satisfação de poder sentir o flamejar de sua pele que ele pensava nesse momento. Sim, porque ele poderia, para chegar ao seu paraíso, abusar dos prazeres do mundo. Ah, os prazeres da carne, como seria bom deitar-se e tocar uma pele tão macia quanto o feltro, quanto o veludo azul de sua cortina.


   Porém, deixou de pensar em tantos disparates. Não seria assim que sairia de sua fria situação. Procurou estabelecer bom senso em seus pensamentos. Lembrou-se da caneca que esquentava junto ao fogo e foi buscá-la. Na ida, a pilastra sinuosa que se encontrava perto da lareira, com seu jogo de sombras e movimentos do fogo, lembrou-lhe, por um instante, o colo de uma bela dançarina do estabelecimento que frequentava quando mais moço. Já fazia algum tempo, nem mais sabia o nome da night girl. Mas o corpo não saia de sua cabeça, que já estava aquecida pelo fogo da lareira, enquanto seu coração permanecia tão gélido quanto os flocos que caiam na sacada. Pieguices... quanta bobagem ele pensava naquela casa, naquelas horas tão congelantes que paravam o movimento dos ponteiros. Ficar só, naquela época, só poderia ser um castigo divino. E ele não acreditava em Deus.



    Cinquenta anos. Em todos esses anos seu corpo desfrutara de todos os prazeres físicos. Muitas mulheres, muita bebida, muitos charutos, muito dinheiro! Esbanjava, caçoava, magoava. Na ordem, todo o dinheiro, fruto não de seu trabalho, mas do trabalho de seu pai – que Deus o tenha! – havia sido gasto de todas as formas: pagava rodadas aos amigos, - estes que, naquele momento, estavam brincando de cavalinho com os netos – comprava sempre o melhor vinho, o melhor champanhe, os charutos , claro, cubanos. As roupas, todas sob encomenda, com os toques mais refinados. Terminava suas noitadas sempre com duas mulheres; uma para cada interesse, ou para cada fantasia. Bons tempos aqueles.


   Mas, agora, somente sobrou-lhe o fogo da lareira e os sonhos com os dias quentes. Não que o dinheiro tivesse acabado; não, ainda teria mais, até o fim de seus dias. Ele achava que poderia ser logo, não saía mais de sua casa. Mas as lembranças não morriam, ele queria afastá-las, mas elas não paravam de visitá-lo. Na hora em que acordava, na hora que comia, na hora que lia. Mas, principalmente, na hora em que a tarde se ia e a noite chegava. Nesse momento, todas as lembranças lhe castigavam. Alguém já dizia que lembrar é viver, ou reviver; ou se não pode vencer algo, renuncie. Isso já era demais, e para ele nenhum ditado otimista – ou qualquer filosofia parecida com a de um seguidor de Zenão de Cício – não era nada além de auto-ajuda. O homem pode alcançar a sabedoria se harmonizar sua racionalidade com a natureza... mas que piegas.


   A noite, fria, chega batendo na janela. O vento uivava. Suas mãos estavam gélidas, assim como seus pés. Um cobertor xadrez, o fogo estalando na lareira. E o sono, que levava suas lembranças embora, para no dia seguinte a consciência trazê-las novamente, dava boa noite ao velho conquistador.

domingo, dezembro 13, 2009

Balanço do Ano

(não sei fazer poesia, mas fiquei com vontade)


  Reli trechos, pedaços esparsos de uma escrita que se consumiu

  Revi cenas de um passado que se congelou no tempo

  Repensei o que já havia pensado mil vezes, mil vezes mil

  Retomei um ponto de vista já gasto, usado, roto, um velho sem lar que me acompanha.


  Busco a novidade, o que a areia levou não volta

  Persigo os sonhos, nuvens de esperança que contam uma história

  Quero me perder, consumir-me por alguns minutos em chamas de fogo

  e depois disso encontrar comigo mesma, nova, repleta de novos sonhos, de novas faíscas de luz.


  Para vocês todos, um Novo Ano cheio de novidades, de sonhos e fogo!

sábado, dezembro 12, 2009

A beleza de ser apenas uma árvore


Os sonhos das árvores



 Fora uma tempestade devastadora aquela. As árvores grossas, com suas copas enormes, foram deixadas caídas pelo vento cortante e feroz. Fernanda teve pena delas... "as sábias árvores", pensava ela, que estavam lá há tantas décadas e que presenciaram o nascimento e a morte de vários entes de sua própria família, que foram  suas confidentes em muitas ocasiões e participaram de várias brincadeiras feitas por ela e pelos primos. Não teve vergonha de deixar as lágrimas escorrerem pelas maçãs do rosto. Chorou por algum tempo, ressentida como se tivesse perdido suas amigas mais íntimas.

 Em meia dúzia de anos nunca se viu uma tempestade tão cruel quanto esta, que Fernanda acabou apelidando de "A Impiedosa". Por doze horas seguidas, o que se ouvia dentro das casas era apenas o ruído assustador da destruição. Não havia luz e nem como desviar a atenção daquele evento horrendo. Fernanda, encolhida em sua cama, pensava nos que não tinham onde se abrigar, naqueles que estavam à mercê da sorte - ou do azar-, como as árvores, os cães sem dono, as famílias que não tinham nada. Não conseguia dormir, já que o vento assobiava jocosamente em sua janela, como se lhe divertisse a desgraça dos indefesos.

A noite parecia não ter fim. O ponteiro dos segundos, endurecido de medo, não queria movimentar-se. Preferia, talvez, encolher-se como Fernanda, mostrando-se impotente em relação à força da natureza. O ponteiro menor, dos minutos, estava petrificado. Fernanda tendia a pressioná-lo em certas situações, como no final das aulas de educação física, e ele às vezes concedia-lhe alguns favores. Mas, naquele momento, até mesmo ela não tinha coragem de pedir-lhe nada. O ponteiro das horas fingia dormir, porém, como era o maior de todos, sentia culpa por não ter coragem suficiente para levantar o moral de seus companheiros.

O coração de Fernanda saltava a cada trovão. Os relâmpagos eram tão fortes que iluminavam a casa, como se alguém estivesse fotografando sua reação de pânico. Seu consolo foi saber que aquilo tudo teria um fim, e que o sol voltaria a brilhar no dia seguinte, encorajando a todos os que passaram por aquela provação. Afinal, assim é a vida. Há tempestades como essa às vezes, e há sempre quem sobreviva.

Porém, assim que o sol nasceu e com ele um novo dia, Fernanda se deparou com a barbárie. As árvores estavam ali, arrancadas, com as raízes expostas ao olhar de todos da vizinhança. Depois de enxugar as lágrimas, resolveu ajudar os homens que tentavam, em vão, liberar as ruas para a passagem dos carros. Mas as gigantes eram pesadas demais... foi preciso a ajuda dos bombeiros, e mesmo assim Fernanda não as deixou um minuto sequer. Os velhos marceneiros, percebendo o apego da menina às suas gigantes companheiras de infância e adolescência, resolveram conversar com ela. Poderiam, segundo eles, torná-las parte de sua vida. Primeiro, a partir das sementes, fariam brotar novas árvores, e quando Fernanda estivesse velhinha também, veria nas novas plantas o reflexo das antigas. Além disso, com a madeira e seu consentimento, construiriam móveis e assim, tornariam reais os sonhos das árvores - que, certamente, adorariam poder conviver com Fernanda, servir de encosto às suas costas quando estas estivessem doloridas. Ou mesmo, quando ela quisesse descansar, com certeza se alegrariam em esticar seus galhos e, suavemente, balançá-la, niná-la, até que seus olhos cerrassem e Fernanda dormisse.

Com os anos, Fernanda deixou a tristeza para trás. Os dias, semanas e meses passavam rapidamente, e mesmo que quisesse, os ponteiros de seu relógio agora eram insaciáveis: consumiam o tempo como se este fosse a sobremesa mais deliciosa que já se ouviu falar. As novas árvores cresciam, assim como seus filhos, e seus cabelos se tornavam cada vez mais prateados. Agora descansava no suave vai-e-vem de sua cadeira de balanço, tão tranquila e serena, que ali poderia até deixar-se levar pelo sono mais pesado de todos...



terça-feira, dezembro 08, 2009

Friedrich Nietzsche



"Uma alma que se sabe amada, mas que por sua vez não ama, denuncia o seu fundo:  vem à superfície o que nela há de mais baixo."


"As vivências terríveis fazem-nos pensar se o seu protagonista não é, ele próprio, algo de terrível."


"Certos pavões escondem de todos os olhos a sua cauda - chamando a isso o seu orgulho."

sábado, dezembro 05, 2009

Minha oração - no dia do meu aniversário



 Sempre gostei muito de aniversários, sempre! Quando pequena, não ganhava presentes caros, nunca! Mas a sensação de ser a "dona" do dia já valia qualquer presente... isso durou bastante até... hoje já não sou tão feliz quanto era nessa época.

Acredito que fazer aniversário é, antes de tudo, uma conquista. Vivi mais um ano, obtive mais experiência, ganhando ou perdendo, venci.

Passei meu aniversário na praia uma vez, com minha família toda. Foi o máximo, principalmente quando cantaram "parabéns a você" e, bem na hora do "rá, tim... BUM!"  tomei um caldo de uma onda gigante! O dia estava quente, as ondas geladas...e eu era mais ingênua do que (ainda) sou.

Uma vez organizaram uma festa surpresa... lembro-me de cada segundo. Não falo mais com todo mundo, pois o tempo, a distância, a vida separa as pessoas. Porém, as lembranças são nossos tesouros, cada um guarda o seu no coração, onde ninguém pode tocar. Nossos sonhos e lembranças são tudo aquilo que somos.

Obrigada, Criador, por mais um ano. Obrigada pelas pessoas que teceram minha história até aqui, obrigada pelas que me fizeram chorar (pois algo aprendi com elas), obrigada pelas que me fazem rir (pois  tornam a vida mais leve), obrigada pelas que me amam ou me odeiam, e por aquelas que são indiferentes (pois também me ensinam a ser cada vez mais paciente). Por fim, obrigada por ter me dado tanta esperança.




sábado, novembro 21, 2009

AEon Flux e outros pensamentos


   A vontade repentina de escrever não é usual. O processo criativo leva alguns dias, pois primeiramente trabalho as ideias nos momentos ociosos do dia, escrevo um rascunho (em folhas de sulfite que encontro na coordenação do colégio, em guardanapinhos dos botecos) para, só depois de algumas alterações, publicar. Alguns poucos textos foram criados sem planejamento - esses geralmente inspirados por uma música  tocante ou por um filme recém-assistido (alguns por raiva mesmo, pura e simplesmente). Eu poderia ter criado uma narrativa a partir de Aeon Flux, mas seria pretensão demais, então resolvi comentar minhas impressões assim, humildemente.

   Assisti algumas partes do desenho, este perturbador, surreal e atrevido - do jeito que gosto. Quando possível, usarei meu poder aquisitivo para satisfazer meu desejo consumista de possuir o box completo dos episódios. Por enquanto, aproveito para expor algumas ideias que fervilham aqui dentro - escrevo por isso mesmo, para não enlouquecer. Minha mente muito se parece com uma panela de pressão, se a ideia cozinhar por muito tempo, explodo.

   Exagero da minha parte! Não enlouqueceria nem explodiria. Mas a necessidade é real.

   No filme - que acabou de ser exibido pela milionésima vez na tv - quem interpreta a Aeon é Charlize Theron. Cumpriu seu papel, o que é até surpreendente, visto que a personagem original é muito mais complexa, assim como o enredo (que na verdade não segue qualquer regra de coerência ou linha temporal - e isso é muito legal mesmo). No filme, a relação entre Aeon e Trevor baseia-se num romantismo típico dos filmes hollywoodianos, o que é de se esperar. No desenho, para quem já acompanhou, Aeon é amante de seu arqui-inimigo, o que rende cenas de um erotismo latente mesclado com tiros e sangue.  E isso era exibido pela MTV na década de noventa, no meio da tarde.

   De maneira sintética, o que impressiona é a ideia da imortalidade presente no enredo - tema que persegue a humanidade desde sempre, na maioria das vezes trabalhado de forma banal ou, mais raramente, de forma inteligente. No desenho nada era explicado e o público, forçadamente, levado a intuir, episódio a episódio, os detalhes da história. No filme, os entrames e personagens foram mastigados, bastando ao espectador apenas engolir - uma grande parte não conseguiu, aliás. Volto ao que pretendia dizer: a ideia da imortalidade nos faz repensar nossa própria existência. Seguimos a rotina tão automaticamente que não percebemos a aproximação, cada vez maior, da morte. É claro que pensamos nisso de vez em quando, com medo ou angústia. Todavia, reproduzindo as mesmas palavras usadas por Aeon no filme, "We're meant to die. Its what makes everything about us matter".


   Somente uma vida, a princípio. Não há outra certeza. Desesperador ou energizante? Talvez seja por isso que, ao envelhecermos, perdemos nossa vitalidade e jovialidade, afinal, é um preço justo a pagar pela sabedoria - que, de brinde, traz consigo o esclarecimento e a resposta à pergunta acima.

   Por hoje é só. Deixo com vocês a Aeon original.




  

  

terça-feira, novembro 17, 2009

Madrugadas (continuação)


   Naquele dia ele chegou dez minutos atrasado para o trabalho. Isso talvez não fizesse diferença alguma para a maioria das escolas, porém, onde trabalhava o atraso do professor era punido com "pontos negativos", e ele já possuía dois. Mais um e, inevitavelmente, seria advertido de maneira severa. Regras devem ser respeitadas, afinal de contas. Ao chegar, descontou sua raiva em cima dos alunos obrigando-os a dar voltas em torno do ginásio, coisa incomum. Mesmo a raiva era incomum, nem ele mesmo estava entendendo o que sentia. Sabia que algo parecia crescer dentro de si, e entre um grito e outro, com uma das mãos em torno da cintura, procurava relembrar o sonho que tivera na noite anterior. Os flash backs apenas aguçavam sua curiosidade.

   Lembrava-se de uma festa e um hospital, e de um médico também. Mas o que havia acontecido? As horas passaram, o sinal bateu e o alvoroço era geral. Crianças e adolescentes correndo de um lado a outro, comendo seus sanduíches ou as frituras medonhas da cantina. Ele apenas tomou um café forte e quente, muito quente. Queimou a ponta da língua e blasfemou. Lembrou-se que sua esposa estava também no sonho. E usava um vestido marrom-glacê, terrivelmente atraente. Nem em sonhos ela poderia usar aquele vestido, pensou ele, tomando o café de uma vez só. Agora a garganta toda queimava, o sinal gritava  e sua mente procurava resquícios de um sonho fragmentado pela memória. Depois de mais duas aulas para a oitava série foi para casa. Lá chegando, com urgência vasculhou o armário da esposa à procura de um vestido marrom-glacê.

   E lá estava! Um vestido da mesma cor... mas diferente. Não era tão justo quanto o do sonho. Ele lembrou-se do quanto custara caro na época, há aproximadamente três anos. Comprara numa botique chique. Era aniversário dela, mas estavam brigados (não lembrou-se do motivo). Porém, sentira vontade de aparecer com algo diferente, nada de rosas ou chocolates. Chegara atrasado ao shopping e quase se deparou com a loja fechada. O lugar era enorme, as atendentes finas e elegantes e o público, em peso, feminino. Lembrou-se daquela sensação: como um estrangeiro numa terra estranha. Acabara levando para casa aquele vestido que agora escorregava de sua mão.

   Aquilo era cetim. O vestido do sonho parecia seda e, se não fosse algum jogo entre sua memória e sua imaginação, estava certo de que também era transparente. Olhou para o teto, respirou fundo, olhou de volta para o vestido. Suspirou alto e guardou-o. Queria esquecer o sonho, voltar à rotina. Mas aquela sensação... talvez estivesse apenas impressionado. Perguntou-se se um sonho poderia enlouquecer um homem. Não sabia.

   Horas se passaram.

   O tempo todo tentava esquecer suas paranóias, mas aquela sensação esquisita teimava em voltar a perturbá-lo. Lavou toda a louça da cozinha para afastar os pensamentos negativos, porém de nada adiantou. Procurou então entreter-se com um filme, e durante duas horas a manobra deu certo. Não conseguiu terminar de ver os créditos finais e então, desesperado com aqueles sentimentos desconcertantes e insistentes, resolveu sair e fazer uma caminhada. Pensou que talvez pudesse até comprar alguns pães e frios para comer na hora da ceia. Concordou também que seria sensato conversar com a esposa sobre o estranho sonho que tanto lhe assombrava durante as últimas 48 horas.

   Sete horas da noite. O sol se escondia cada vez mais no horizonte. Os tons alaranjados e rosados do céu o fizeram parar para assistir aquela cena tão banal e ao mesmo tempo tão fantástica. Um pássaro voou baixo e se enfiou entre os galhos de uma árvore próxima. Com certeza, pensava ele, agora a ave iria descansar suas asas, pois o domínio da noite e sua escuridão era certo e estava próximo. Agora era hora de repousar e esperar até que o sol, cintilante, retomasse o seu posto, tão efêmero quanto o da própria madona das trevas.

   Chegou em casa e já era noite. Ruminava mentalmente a conversa que teria com a esposa assim que chegasse. Ela, certamente, já teria ligado para meio mundo à sua procura. Mas só o que pensava era em resolver logo essa insana situação. Abriu a porta, entrou. Na sala, jogadas no chão e amontoadas no centro de mesa, diversas agendas telefônicas. Vindos da escada, os passos apressados da mulher. Ela o fita por alguns segundos e corre para abraçá-lo, e o que se ouvia entre alguns suspiros de alívio era "meu amor, que que te aconteceu?" e "queria me matar de preocupação?".

   Dois minutos depois estavam sentados no sofá e ele a fitava. Ela já não era tão jovem. A vida também não fôra tão fácil assim. O casamento, a filha, o trabalho. Preocupações. Há quanto tempo não se divertiam? Tentou lembrar-se da última vez que saíram para beber e dançar... não conseguiu. É que, com o tempo, certos interesses acabam ficando em segundo plano. Ou terceiro... ou acabam sendo deixados de lado. A mensalidade da escola, a compra do mês, o seguro do carro, tudo isso pesava mais na balança. Não  se tornara possível gastar o pouco que tinham para reencontrar os velhos amigos em velhas  sessões de nostalgia. Pensando melhor, talvez estivessem velhos demais para isso. Talvez o problema não fosse financeiro.

   A esposa questionou-o, queria saber qual era o problema. Disse que ele estava quieto demais, perguntou-lhe em que mundo estava. Os olhos dela agora serviam como espelhos e a imagem que via não lhe agradou. A imagem de alguém que nunca quisera ser. Por fim, resolveu contar-lhe sobre o sonho que tivera. Detalhe por detalhe. Quando terminou a narrativa esperava por consolo, afinal, até aquele momento pensava estar louco. A esposa, num espasmo, desatou a rir. "Deixa disso, meu bem, era só um sonho. Acho melhor a gente sair hoje, ficar bêbados, porque na segunda a Bibi volta." Alívio. Respirou e riu também. Mas riu um riso forçado, como quando rimos de uma situação desesperadora. Abraçaram-se e subiram para o quarto.
A esposa despiu-se, ele despiu-se. Tomaram banho juntos, como há anos não faziam. Embaixo do chuveiro, gemidos. Estavam, enfim, felizes, e seu sonho não mais se repetiu.



domingo, novembro 01, 2009

Um café requentado e um mantra mal recitado



As nuvens já rodeavam a cidade há dias, como se estivessem esperando o momento certo para que deixassem cair suas gotas de chuva. E foi justamente naquela manhã. O despertador ainda não tocara, mas ela já havia acordado. Pela fresta da janela só via um céu cinzento, mal humorado. Pensou em suas blusas de frio, todas empoeiradas, guardadas há meses dentro do armário e suspirou. O pior não seria isto, e sim a falta de um guarda-chuva, objeto muito útil para quem não possuía um veículo próprio - como ela. Deu de ombros. O despertador berrou, fazendo-a pular da cama, literalmente.

Zonza de sono, caminhou em direção ao vaso sanitário. A louça gelada a fez despertar de uma vez. Bem que poderia inventar uma desculpa para não ir trabalhar e dormir mais algumas horas. Quem sabe até a hora do almoço... mas não. Não iria conseguir dormir novamente e poderia ainda se arrepender, pois sua consciência não iria deixá-la em paz. Ligou o chuveiro. A primeira rajada de água estava gelada e então blasfemou. Passados vinte minutos, não queria mais sair debaixo daquela ducha tão aconchegante. A temperatura da água se assemelhava à temperatura de seu edredon, o vapor a divertia - rabiscava com o dedo no vidro do box vários corações, pirulitos e estrelas -, o perfume do xampu a relaxava ao mesmo tempo em que o sabonete a acariciava. Naquele momento estava no paraíso. Suspirou. O tempo passava, ela precisava sair do banho. Desligou o chuveiro, se enxugou e, saindo do banheiro, sentiu o ar mais frio. Vestiu-se rapidamente, desceu as escadas e tomou um café requentado no microondas, uma droga. Saiu de casa.

Ponto de ônibus: nenhum chega. Impaciente, acende mais um cigarro. Dentro de vinte minutos teria que entrar na sala de aula e até aquele momento nenhuma condução aparecia. O frio e a chuva só pioravam a situação e para relaxar um pouco ela mentalizava um mantra. Vira na televisão uma reportagem sobre budismo dizendo que em situações adversas o tal mantra poderia ser recitado. Budismo em escala global. Palhaçada!

Apesar de saber que talvez não adiantaria muito, iniciou uma sequências de "ows" desafinados e riu sozinha. O vento, inexplicavelmente, tomou outra direção e a chuva passou a molhar toda a sua calça jeans. O tênis já estava encharcado, assim como sua meia. O próximo passo seria ela ficar gripada, o que não era tão ruim, pois poderia faltar ao trabalho sem se sentir uma pessoa desonesta. Mas antes que ela pudesse se imaginar quentinha embaixo de seu edredon, o ônibus chega.

Sentou-se no primeiro banco que viu. Olhando pela janela, ficou a divagar sobre a vida, como todos os dias fazia. Nunca chegou a conclusão alguma, possuía apenas suas premissas. Mesmo suas certezas eram incertas, e ela sempre refletia sobre a falta de controle que possuía sobre seu destino. Entretanto, nessa manhã concluiu uma ideia, finalmente: não havia certeza alguma na vida, e era essa a graça. Se tudo fosse tão certo não haveria risco algum e a vida não teria suas surpresas.

Deu sua aula, corrigiu as provas de seus alunos, discutiu com os mais interessados. Sabia o que estava fazendo. Ali era o seu mundo, o seu lugar. Não teria que se preocupar com o tempo, com as contas, com tudo aquilo que não podia controlar. Tudo ficava sob controle a partir do momento em que começava sua primeira aula do dia. E isso a deixava satisfeita.

Seis da tarde. Mais um ônibus. Inexistência de nuvens no céu, que já ficava alaranjado. O pôr-do-sol a fazia sentir-se mais viva, a noite a fazia sentir-se mais feminina. Mas antes de chegar em casa, espirrou. É, provavelmente não iria trabalhar no dia seguinte...


terça-feira, outubro 13, 2009

Enquanto você dorme, há quem olhe por (para) você

Frenesi



Um silêncio compete com o barulho infernal que se esconde dentro de sua cabeça. Um barulho que aparece sempre quando você acorda ou quando se sente perdido num sono (ou sonho?) profundo, quando tudo o que vê se resume a você mesmo, contorcido pelas lembranças, pelos medos, pelas fraquezas. Uma náusea interrompe seus pensamentos e se espalha por todo o corpo, enraiza-se dentro de sua alma e você desfalece. Uma lança de lâminas curvas e cortantes atravessa a carne de seu coração, e nesse momento você se pergunta: por que eu?

Estranhos prazeres para quem se considera perfeito. O céu cinzento parece ser a única coisa palpável. O sol já não ajuda mais como antigamente, quando você ainda era uma criança que gostava de sair para brincar de esguicho. Você sente pena de si mesmo. Sabe estar preso num labirinto que você mesmo construiu e do qual, inexplicavelmente, desconhece a saída. Sem forças para lutar contra, sem esperanças, desnorteado. Mas tudo é como num sonho perdido, você consegue rir e sentir-se bem, um masoquismo maquiado.

Mais uma vez o céu parece não ser grande coisa. Você olha para cima, procura alguma estrela cadente, uma nave espacial, um sinal divino. Nada acontece e tudo o que você vê é o reflexo de si mesmo nos olhos de um estranho. E isso é tudo.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Santa Ingenuidade!



Há algo que se aprende na vida adulta: perder a inocência. Ao contrário do que Fellini acreditava, me parece que o mundo hoje não aprecia em nada a ingenuidade... há quem ainda grite a plenos pulmões a favor de uma vida menos maliciosa, mais infantil - e veja, nesse sentido, não me refiro à irresponsabilidade ou à imaturidade, mas à inocência -, mas o que percebo é o contrário. Triste, mas verdadeiro: perdemos nossa inocência há muito tempo.

Ao nosso redor há todo tipo de maldade. Não é necessário procurar muito, facilmente encontramos no ponto de ônibus, ou nas escadas rolantes do shopping, às vezes onde nunca imaginaríamos. "Maus" são esses indivíduos que carregam consigo o peso de suas existências, que se sentem pormenorizados pelos que brilham mais, pelos que são mais felizes. Mentirosos, frustrados, covardes, gananciosos, rudes, pessoas cuja feiúra não se vê por fora.

Estou cansada hoje. E minha inspiração se esvaiu, como a areia das ampulhetas, à procura de um tempo que não volta mais.


domingo, setembro 20, 2009

Sonja - She-Devil with a Sword!


"Uma imagem vale mais que mil palavras", é o que se repete por aí. Eu não acredito nisso. Na minha humilde opinião, não há nada como aliar ambas, imagens e palavras. E se as palavras criam imagens, porque uma imagem não pode criar palavras?
Minha inspiração, ao escrever Sareh, foi essa imagem. Red Sonja, a guerreira hirkaniana mais célebre dos quadrinhos. E, meninas, essa mulher merece nosso respeito, apesar de ter sido desenhada por homens, apesar do apelo ao corpo feminino perfeito (na opinião deles!), pesquisem sobre a história dessa guerreira! Vale a pena!



sexta-feira, setembro 04, 2009

Sareh

Sareh


A sandália de couro cortava sua pele e depois sua carne a cada passo que dava, e os pés pareciam queimar em brasas. Longo era o caminho e imperdoável o sol: seu castigo se estendia a todos que ousavam trilhar aquela terra árida, desde a urtiga mais resistente até ela, que parecia indiferente àquele clima seco e cálido. Seu corpo vertia suor e sangue, mas se parasse para descansar, talvez não conseguisse dar cabo à viagem. As dores que sentia e o horizonte trêmulo a desafiavam, porém, ela apenas visualizava, através dos olhos de sua mente, a recompensa final. Com o diamante voltaria cavalgando em um lindo animal e beberia toda a adega de Heigh, um de seus únicos amigos ainda vivos.
Sareh. Era uma caçadora, tanto de recompensas quanto de animais e homens. Suas armas eram simples, entretanto sua força e agilidade deixavam qualquer desafiante extenuado. Muitos procuravam-na para oferecer-lhe tarefas impossíveis, pois sua fama se estendia das terras planas às colinas bárbaras. A busca pelo desconhecido, a batalha e o reconhecimento a inebriavam, era isso tudo o que a excitava.

Mesmo com tantos boatos sobre sua idade avançada, as formas de seu corpo denunciavam juventude. Os mais idosos adoravam contar histórias sobre ela nas reuniões dos anciãos. A mais famosa era a do elixir da juventude. Certa vez, numa de suas viagens a terras distantes, Sareh encontrara um elixir misterioso, e sem qualquer pista acerca de quem seria seu possuidor, levou-o ao velho alquimista de sua aldeia. Este, maravilhado e incrédulo, informara-lhe que se tratava de uma mistura milagrosa: se usado com cautela, estenderia o tempo de vida de quem o possuísse; caso contrário, poderia encurtá-lo. A partir disso, os anos não mais deixaram marcas em seu rosto, nem em seu corpo bem torneado pelas lutas de espadas. Muitas histórias eram conhecidas do povo da aldeia. Fora dali, suas aventuras se espalhavam por outros que a conheceram de alguma forma, que tiveram a honra de oferecer-lhe estadia por uma noite, dar-lhe o que comer ou beber.

Sareh pensou que poderia, pela primeira vez, estar perdida. O horizonte trêmulo não mostrava indícios de qualquer tipo de civilização ou mesmo qualquer sinal de vida. Apenas a morte a rondava, mas isso de forma alguma a assustava. Não iria voltar sem o diamante, essa era sua certeza. A dor era insuportável, mesmo para uma guerreira como ela, que já lutara com homens gigantescos, com animais ferozes e até mesmo seres que só em imaginação a maioria dos homens conseguiria desafiar. Apertava seus olhos e rangia os dentes a cada passo, mas o brilho ofuscante do sol lembrava o grande diamante Haijink, seu objetivo. Escondida por séculos nas pirâmides antigas, protegida por guardiões e magia negra, a joia lhe traria a fortuna que tanto cobiçara, pois seria muito bem paga pelo serviço. Havia uma lenda que dizia ser o diamante o portal para o Outro Lado, onde os mortos poderiam ser ressuscitados. De acordo com outra, que serviria como a Chave do Tempo e assim seu possuidor teria o poder de manipular o presente, o passado ou mesmo o futuro. Sareh não contava com isso. Muitas dessas histórias contadas pelos anciãos não passavam de entretenimento ao redor de fogueiras para homens ou rapazes em busca de algo em que acreditar. Ela mesma ria copiosamente quando lhe perguntavam se era imortal.

Não acreditava na imortalidade, nem em poderes ilimitados. Certa vez, numa luta contra um ciclope, antes deste desfalecer, arrancou-lhe o olho. Todos apostavam que se Sareh queimasse numa fogueira o olho de um ciclope, como a lenda dizia, se transformaria numa deusa. Ela não perdeu tempo, organizou todo o ritual e chamou os anciãos para que estes vissem que tal sandice não passava de uma história. Na noite seguinte, mesmo assim, as histórias sobre ela e o olho rendiam diversas teorias e muitos queriam conhecê-la para que ela realizasse seus desejos, como se realmente fosse uma divindade. Depois disso, desistiu de levar o esclarecimento ao povo. Concluiu que o poder das lendas era imensamente maior que qualquer interesse pelo conhecimento racional.