terça-feira, julho 05, 2011

O Viajante


O viajante

Por mais que tentasse, nada preenchia o vazio no qual se encontrava a sua alma. Apesar de ser uma pessoa com uma vasta experiência de vida, era como se, a cada viagem, nada antes tivesse aprendido. Muitos o menosprezavam, por não exercer qualquer função honrosa. Ele era um viajante. Seus proventos às vezes eram fruto da venda de objetos para antiquários, outras vezes, produto de boas jogadas em algum cassino clandestino, ou ainda, de trocas. Já passara por situações difíceis, insólitas, inesquecíveis. Mas mesmo assim, a cada novo quarto de motel, a cada cama, a cada espelho, era como se nada tivesse antes conhecido, como se nem mesmo tivesse conhecido a si mesmo, como se estivesse na companhia de um estranho; os momentos em que estava só tornaram-se cruéis, desesperadores. As companhias eram frívolas, o quarto era sombrio e a cada dia sua solidão tornava-se ainda mais severa.  Procurava sempre manter alguma esperança, a esperança de encontrar a si mesmo. Entretanto, a cada dia, a cada noite, a cada minuto se sentia muito mais longe disso.
A cada porta aberta, poderia encontrar uma razão para tanto sofrimento. Sofrimento, pois sentir-se só certamente é a dor mais profunda e insistente da vida. E todos os lugares por onde passava poderiam trazer um possível fim para essa dor interminável, ou pelo menos, um alívio. Mas nada, nada trazia sua serenidade de volta, todos que transitavam pelas ruas, todos que o cumprimentavam, todos nada traziam.
Foi quando, numa manhã como tantas outras, ele acordou sentindo-se livre. Tal qual o vento, que possui o poder de visitar lugares diferentes, que pode tocar nos homens a qualquer momento, que pode subir até os céus e voltar, trazer um frescor nos dias quentes ou até mesmo gelar os ossos nas estações mais frias. Sentia-se o próprio vento neste dia. Poderia quase sair flutuando ali mesmo, sem nem ao menos levantar-se. Viu, no alto de sua cabeça, o lustre balançando vagarosamente, e com as pontas dos dedos fez o movimento que o objeto desenhava no teto. Sorriu, como há anos não sorria, um sorriso de criança que diverte-se com sua arte, e sentiu-se à vontade para levantar-se e buscar algo para comer. Não comia já há dias, e seu estômago suplicava por uma fruta suculenta e doce; doce como a vida haveria de ser, suculenta como todos os prazeres já experimentados e como os que ainda viriam a ser. Sentou-se em sua cama, e o quarto já não era o mesmo, ou era e ele nunca se dera conta. O espelho estava ali, mas parecia envolto numa áurea faiscante. Seu corpo, leve, seguiu o caminho de todas as manhãs ao refletor, mas desta vez, o reflexo foi outro, completamente diferente. O rosto, antes castigado pelos sentimentos que o corroíam, agora apresentava linhas suaves; suas maçãs assimilavam-se a maçãs reais, seus lábios davam a impressão de terem sido pintados por um artista, assim como seu nariz, e seus olhos transformaram-se em um par de prismas. Sim, aquele era realmente ele. Após contemplar-se, tomou o caminho do cômodo mais quente da casa. Foi até a cozinha e desconsolou-se. Nada para comer. Mas não, sair naquele momento seria outra descoberta, talvez ainda mais interessante. Pegou seu casaco e saiu, sentindo-se o homem mais poderoso.
Abriu a porta de sua casa. A rua continuava ali, igual, e as pessoas também iguais. Mas não se importava com os outros. Agora ele tornara-se a própria brisa matinal. Viu a banca de frutas, e era como se nunca tivesse visto a beleza e a pureza das mesmas. Rápido chegou bem perto delas, e diante de tanta variedade ficou um pouco indeciso, mas logo fez suas escolhas. A primeira seria um belo melão, com suas cores verdes e amarelas, e a segunda seriam vários morangos, de uma vermelhidão semelhante ao rubro da face de uma garota tímida ao ser beijada pela primeira vez. O vendedor entregou-lhe os pacotes e disse o valor. Pagas, ele as levou para sua morada para apreciar a delicateza da tez de cada uma delas, e não deu importância alguma à rudez do vendedor. Agora seria sua vez de admirar a gentileza da vida.
Ao chegar, dirigiu-se à cozinha, agarrou uma faca e, contemplativamente, cortou uma pedaço do melão e vários morangos. Dispôs ambos em um prato fundo e iniciou o ritual. Ingeriu-as, deliciando-se com o sabor de tão divinas frutas como se aquele fosse seu último desjejum. Nunca antes tinha sentido tão intensamente o prazer de comer, e, ainda mais maravilhado, percebeu que sua vida fora, nos últimos 30 anos, apenas um amontoado de tentativas de fuga. Ele fugia de si mesmo, dos outros e dos simples prazeres da vida sem nem perceber. E verdade era que a vida era simples demais, assim como suas melhores coisas. Uma fruta, o vento, o pôr-do-sol. Um beijo, o toque. Uma música, o silêncio.

180 graus


180o

Visto ao longe, parecia alguém comum. Uma pessoa como tantas. Tinha um sonho, um cachorro, tinha medo. Não era insensível, de forma alguma, mas não acreditava no sentimento rotulado “amor”. Para ele, não passava de uma invenção mercadológica, assim como Papai Noel. Gostava de música eletrônica, mas já havia balançado sua cabeça inúmeras vezes em shows de metal. Na verdade, ele compartilhava de apenas uma ideologia, a própria. Acabaria descobrindo quem era de verdade. Talvez isso acontecera quando se deu conta de que interpretara papéis durante toda a sua vida. Na escola, no trabalho, no “amor”.
Sempre foi inteligente, mas desde pequeno não possuía modelos. Sua mãe quase sempre estava ausente, seu pai o subestimava. Nada de carinho, “é coisa para meninas”. A solução era chamar a atenção, e a partir disso, mentir. Tentava fazer com que sua vida se tornasse interessante aos pais. É claro que não funcionava, e ainda era pior quando caía em contradição e era pego mentindo. Porém, isso durou ainda algumas décadas.
Na adolescência, não possuía amigos. Era considerado o patife, o bobo. Nenhuma garota, é claro. Chegou a se apaixonar, tentou achar algum meio de demonstrar isso. O resultado foi humilhante, aquele belo rosto, aquelas duras palavras, a imagem demorou a sumir. Decidiu mudar.  Deixou de lado os óculos, adotou um novo corte de cabelo. Passou a dominar alguns hábitos peculiares das pessoas mais populares. Foi aí que interpretou seu primeiro papel. Os garotos populares naquele momento eram os cabeludos.
Após muitas aulas, aprendeu a tocar. Juntou-se a vários outros do grupo e montaram então uma banda. Deixou o cabelo crescer, usava camisas e calças surradas. E foi aceito, não só pelo grupo, mas também pelas garotas. Assim acabou “rolando” sua primeira experiência sexual. A partir de então, algo aconteceu com ele. Percebeu que a saída era ser o que não era.
Alguns anos se passaram, cansou-se. Deixou a banda, cortou o cabelo. Decidiu ganhar dinheiro, pois assim o nível de vida e das garotas subiria. Estudou muito e procurou uma profissão de status; entrou na universidade. O curso era engenharia de computação. Escolhera o que em menos tempo lhe traria lucros. Dentro de alguns anos, tornou-se dono de uma das melhores empresas de softwares. Ficou rico, aproveitou-se de tudo o que o dinheiro poderia oferecer. Foram inúmeras viagens, inúmeros bens, inúmeras garotas.
Mas havia excedido o limite. O seu limite. Não se controlava mais. Seu triunfo e, ao mesmo tempo sua obsessão, era a cada dia ganhar mais dinheiro e a cada noite ganhar mais uma garota. Resolveu dar mais uma guinada. Largou tudo, menos, é claro, sua enorme reserva financeira. Fez uma plástica. Pintou o cabelo.
Decidiu que seria pai de família. Resolveu dar tudo o que não teve ao seu rebento, que com certeza seria diferente dele. Seria feliz. Entrou em um curso para gestantes, pois somente assim poderia interpretar convincentemente o papel de pai, já que nada sabia sobre. Fora o espanto das grávidas, tudo aconteceu como ele planejava. Quase pôde sentir o feto! Ah, como seria bom ser uma mulher nesse estado!
E por falar em mulher, precisava de uma. A mãe. O grande abrigo. As asas protetoras. Deveria ser uma fortaleza, com aquele ar doce, fala mansa. Deveria ser alguém que permanecesse dentro de casa. Nada de mulher independente! Mas, onde?
Foi tomar uma ducha. Os pensamentos corriam, os olhos estalavam. O que fazer? Já conhecera tantas mulheres! E até as que manifestaram em algum momento o instinto maternal não serviriam. A mãe de seu filho, afinal, não possuiria aquele cheiro de lascívia.
O sabonete corria entre seus dedos como o tempo. Já era tempo. Já passara do tempo. Esperou a água limpar toda aquela sujeira. Água fria, depois gelada. O tremor.  Não seria qualquer uma. Seria especial, seria a mãe que ele não teve. Havia a afeição da avó, mas a sensação de ter sido amado durou apenas alguns anos de sua infância. Enxugou-se com uma das toalhas, começando pelos pés, depois pernas. Seu sexo entumeceu-se, não tanto pelos movimentos da toalha, e sim, por sua grande capacidade de resolver os problemas da melhor forma possível! Nada, nada mais grandioso! Seu corpo todo enrijeceu-se diante da constatação de tal idéia. Deu então uma virada de 180 graus, olhou-se no espelho e encarou, por trás de sua face enrugada, o rosto doce da mãe perfeita.

segunda-feira, julho 04, 2011

Para quem quiser ler


Voltava do aeroporto numa estrada de alta velocidade, e pisava fundo. Sempre dirigia ouvindo as músicas de seu pendrive no volume máximo, porém, dessa vez somente o silêncio a embalava. Um silêncio cheio de palavras, as ditas e as emudecidas. E aquelas que não conseguira transformar em voz insistiram  em fazer morada em seu coração, como espinhos. Doía tanto que, naquele momento, seus olhos encheram-se de lágrimas e, para não perder o controle  - da direção, de seus pensamentos - resolveu ligar o som. A música que começou a tocar, entretanto, a fez descarregar ainda mais todas as lágrimas que haviam sido guardadas dentro de si, e ela se deixou levar pelos sentimentos que não queria externalizar há algum tempo. Era melhor assim, e em meio aos soluços, abaixou o vidro do carro, para sentir o vento secar seu rosto. Não era tristeza... não sabia ao certo o que era. O dia fora perfeito, como todos os outros em que se encontraram. Talvez o problema fosse esse: porque era algo bom demais. E impossível.

Enquanto tentava se recompor, lembrou-se do início daquela história. Refletiu sobre o passar do tempo, os acontecimentos, e aos poucos voltava à realidade. Ninguém conseguira fazê-la sentir aquilo, em momento algum de sua vida. Era intenso demais, e inexplicável, e por mais que, durante meses, ela conseguisse acreditar que poderia esquecê-lo, assim que seus olhares se cruzassem e eles se tocassem, seria como se o tempo não existisse. Como se nada tivesse mudado. Suas tentativas de racionalizar a respeito fracassaram, não havia explicação... Será que ele também se sentia assim? Perdido?

A estrada chegava ao fim, logo estaria em casa. Todas as vezes em que tentou se entregar a alguém, feriu-se. As cicatrizes eram feias, seu medo e sua insegurança tornaram-na indiferente. Mas ele era seu ponto fraco. Sua intenção, naquele dia, era despedir-se dele. Iria encerrar a história,  de uma vez por todas, afinal, ele havia recomeçado... então sorriu. Não conseguiria parar. Era seu veneno e, ao mesmo tempo, o antídoto. Dessa vez, não negaria mais, nem a ela mesma, o que desejava tanto. Não pediria nada a ninguém, não daria explicações, não mentiria mais a si mesma. Aproveitaria cada segundo que pudesse ao lado dele, para contrariar sua natureza... pois a vida é maravilhosa, quando realmente vivemos.

"Eu gosto do impossível, tenho medo do provável, dou risada do ridículo e choro porque tenho vontade, mas nem sempre tenho motivo. Tenho um sorriso confiante que as vezes não demonstra o tanto de insegurança por trás dele. Sou inconstante e talvez imprevisível. Não gosto de rotina. Eu amo de verdade aqueles pra quem eu digo isso, e me irrito de forma inexplicável quando não botam fé nas minhas palavras. Nem sempre coloco em prática aquilo que eu julgo certo. São poucas as pessoas pra quem eu me explico." Bob Marley

quarta-feira, maio 04, 2011

Um dia na Arcádia



Às vezes, por mais que tentemos, não conseguimos entender os eventos que tomam forma e, de repente,  transformam-se em história. A nossa história. O tom alaranjado do céu, ao amanhecer, nos priva do mundo onírico arquitetado por Morpheus e leva-nos à realidade de mais um entre tantos outros dias. O ritmo do trabalho nos força a esquecer por algum tempo os devaneios, mais uma vez. O mundo concreto ao invés do abstrato, o dinheiro no final do mês, as contas atrasadas, tudo ao mesmo tempo. Enquanto isso, o tempo cumpre seu dever e o que era presente há pouco tempo já se tornou o passado do qual nos relembraremos com nostalgia ou iremos tentar esquecer. E mais uma página do livro de nossas vidas é escrito.

Talvez o segredo seja apenas viver. O problema é: como? Os árcades talvez tivessem razão, ao retomar o valor do bucolismo, ao criticar o poder centralizado e elevar a Arte, assim como retomar o sentido do "Carpe Diem" de Horácio. Entrar em contato com o natural, sentir a presença dessa energia tão simples e poderosa, em minha singela opinião, deveria ser algo comum, e não extraordinário, como o é. A arte, então, poucos são os que procuram pela beleza da arte pela arte, a expressão subjetiva e pautada pela percepção, pelas emoções e ideias, que pode ser contemplada num momento cotidiano como o abrir das janelas. Refletir sobre as questões mais mundanas, estimular o senso crítico também faz parte desse viver, e, o mais importante: colher o dia!

Todavia, esses são apenas pensamentos que, se não transformados em palavras e, posteriormente, em sentenças, logo se dissipariam em meio às demais obrigações que me espreitam agora. O concreto versus o abstrato. 


sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Somos. Podemos.

Eu posso falar alto e baixo, ouvir mpb e rock n' roll, sentir calor e frio, provar sabores doces e amargos, ver o por-do-sol e seu nascer, sentir cheiros de flores e de enxofre. Posso querer viver dentro de uma gaiola ou de uma jaula, posso querer percorrer todo o caminho necessário até encontrar o fim do arco-íris. Posso ser livre, posso querer ser amarrada. Posso tentar melhorar as coisas, posso tentar terminar com tudo. Posso. Posso. Posso. No poço, no fundo, sabemos que o caminho não pode ser mais para baixo, e então erguemos nossas cabeças e vemos a luz que vem por cima. Este é o único caminho e podemos escalar aos poucos.

O que somos pertence a nós, é o que temos e o que vamos deixar, é o nosso único bem ou único mal. E os dias passam, as experiências acumulam, e os anos voam. Mas as lembranças se enterram em nossas mentes. O que fica, o sabor residual de cada grito e sussuro, de cada trilha sonora, do suor e do arrepio, dos raios claros da manhã e do alaranjado do final do dia. O saber residual da vida em si é o que importa, a verdadeira experiência.

Um dos maiores prazeres da vida é desfrutar desses sabores todos. Mas, talvez ,o maior deles seja reviver o momento exato em que nos propusemos a escalar, tijolo por tijolo, aquele poço tão profundo. É um troféu invisível que somente os olhos de nosso interior conseguem ver, o esforço individual que somente cada um sabe o quanto doeu. 

Então, com tantas festas, risos e bonanças, se esquece da dor. Mas o sabor deve permanecer para que nos lembremos que nenhum buraco que nos aprisione poderá conter nossa necessidade de experimentar. Somos. Podemos.






sexta-feira, fevereiro 11, 2011

About...

Comentário... Black Swan

    Sou fã de Natalie Portman desde a sequência de Star Wars - eis minha raiz nerd, ou melhor, geek. Depois com Closer, me surpreendi mais uma vez. Dentre tantos outros bons filmes e boas atuações, comecei a buscar notícias sobre novos projetos, filmes em que atuaria, etc. E, desde o início das filmagens de Black Swan, estava animada e feliz por mais um trabalho que seria bem conduzido, afinal, ela levou muito a sério todo o complexo enredo e assimilou basicamente todo o processo criativo do diretor, outro grande nome, Darren Aronofsky. A primeira imagem que vi foi a do poster que imprime a foto de Natalie Portman encarnando o cisne negro, com aqueles olhos vermelhos e maquiagem gótica. Enfim... nada mais natural que, ao ficar sabendo da estreia do filme, ansiasse por assistí-lo. Mas, com o tempo apertado, só consegui hoje - uma semana depois. É claro que já contava com o estardalhaço que a obra faria, e de certa forma, fiquei apreensiva, pois com tanta expectativa - minha propriamente e também aquela criada pelos comentários alheios - poderia me decepcionar. Mas não foi o caso, Natalie é Natalie e não só por ela, mas pela história e demais personagens, saí do cinema bem perturbada. Era esse o intuito, afinal.
   "O lago dos Cisnes", obra de Tchaikovsky, fora um fracasso na época de sua première, segundo consta. O filme se vale de uma premissa interessante em relação ao fracasso - a companhia de dança está em declínio, sua principal bailarina - Winona! -  é forçada a se aposentar e então o diretor está à procura de alguém que consiga o feito de colocar novamente o grupo nos holofotes. Interessante foi que, em dado momento do filme, pensei no quanto somos pressionados, em todos os âmbitos, a sermos perfeitos e nunca aceitarmos o fracasso. Essa pressão dá o tom ao filme. É essa a base de discussão.
"Seja perfeita!"
   A perfeição, para o diretor da companhia, entretanto, não mora na técnica tão somente. A perfeição pode ser - e deve ser - encontrada no desapego, na leveza, no descontrole. Oras... não acredito na perfeição. Acredito na imperfeição, e está aí o grande segredo: na eterna busca pelo perfeito, devemos usar mão do que temos, o imperfeito. Lógico e incontestável. 
   Há muito o que dizer ainda, e pensei a respeito do quanto queremos manter o controle sobre nossos atos e pensamentos, no quanto somos torturados pelas falsas impressões e pelo desejo. O desejo de chegar ao lugar mais alto, de conquistar - e que, em grande parte das vezes, não é um desejo próprio, mas sim incentivado por alguém a quem queremos agradar - pode nos ferir e nos lança num abismo de psicoparanoias. A falta de autoestima, nesses casos, ampara a autoflagelação e a culpa. O medo nos faz criar realidades desesperadoras, falsas, que nos convencem de que estamos à beira do fracasso, o que não queremos.
"Minha garota meiga!"
   Outra pauta, esta. Por que devemos perseguir a perfeição também em relação ao nosso comportamento? O que a garota meiga ganha em relação àquela que segue seus instintos, que não deixa de desejar, mas que admite sua imperfeição? E que preço se paga por ser - ou encenar - a boa moça? Há, sim, um preço alto demais: uma total desintegração da psique, e assim, diversos problemas relacionados à personalidade. Não, obrigada. Mesmo em família, existem focos desse tipo de desequilíbrio: mães que são controladoras e que tentam impor, conscientemente ou não, seus sonhos como objetivo de vida aos filhos. Resultados desastrosos para quem seguir essa linha de raciocínio. 
   Para todos os que ainda não viram o filme, não se preocupem: se consegui dizer algo, fiquei apenas na superfície. O que eu quero mesmo é compartilhar minha vontade - que é enorme - de poder ser imperfeita, numa sociedade que, hipócrita, desvia o olhar do que é humano e passa, cada vez mais, a endeusar o inalcançável.

 


domingo, janeiro 30, 2011

Aos Joselitos de todo o Brasil!!!



Vivien, este vídeo é uma homenagem ao Joselito master de ontem:  fã incondicional de Creedence, fez um esquenta antes do show e já chegou arrasando na dancinha! Diversão é com ele mesmo, não importa quem esteja na frente, atrás ou do lado! E, quando menos esperávamos, Joselito do Creedence volta, quase derrubando a mesa... No fundo, ele é uma boa pessoa, só não sabe brincar!
HHAHAHAHAHAHAHAHA!
Que noite! 
Joselito sem noção, americano calvo insistindo em pagar TUDO pra gente (ei, moça, quer saber? bota na conta do careca!), isso sem contar o Larry dos Três Patetas! 

Mas a banda é maravilhosa e não precisamos enfrentar filas e nem pedir licença pra chegar até o banheiro, que estava limpo... botamos a conversa em dia e o fim da noite foi bem legal!
Repeteco hein!

sábado, janeiro 22, 2011

Um mais um = dois

Queria eu poder voltar hoje ao aconchego de seu peito, só para sentir seu cheiro e lá ficar, sem fazer mais nada... um lugar que pouco visitei, mas que me conquistou de forma inesperada e surpreendente. Foi lá que senti seu coração bater enquanto você dormia, que pensei nas curvas e derrapagens da vida ocorridas nesse tempo todo em que ficamos longe um do outro. Será que nos machucaram muito? Será que aprendemos a dirigir nossos corações?
Apesar de todo o seu cansaço, de tanta ansiedade de ambas as partes, do pneu furado... não pude deixar de admirar você.  Você emana alguma substância natural que me hipnotiza, isso sem precisar me tocar. Ontem eu estava muito bem localizada: enroscada em seu pescoço, tocando seus cabelos, mordiscando seu ombro esquerdo. Eu estava lá, entregue. E o que mais poderia querer?
Nós temos nosso trabalho, famílias, problemas, nossa individualidade. Somos adultos e cientes do quanto  de nossas janelas podemos abrir um para o outro. Há algo de mágico em nossos encontros, criamos asas e de repente não estamos mais presos ao chão, a única gravidade é a que puxa um corpo ao outro. Não precisamos de amarras, não fazemos falsas promessas, e o mais importante, não contamos mentiras. Você está no caminho de tornar-se meu porto seguro.
Escrevi para você. E quando ler, não deixe de expor sua opinião, adoro quando recebo uma crítica construtiva...
Gosto de você. Gosto mesmo.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Analise aí

Olhei para trás, admirei o quanto já caminhara. Mirei o céu e encantei-me com sua beleza, que não acaba no horizonte, muito pelo contrário. O horizonte é o meu único limite. A cada passo penso estar mais próxima dele, e o que ficou para trás já consta como conquista. Aprendemos isso da maneira mais dura, mais humana, através de perdas e ganhos. 

O que quero dizer hoje, neste post, é que não há tempo para tristezas, apesar delas serem cruéis quando dão as caras. Quem nunca amou de verdade não sente o vazio deixado quando aquele se vai, quem nunca venceu não entende o amargo da derrota, quem não tem medo não precisa se precaver. Por isso, que saibamos amar, vencer e temer. A dor deve nos servir para lembrarmos o quanto evoluímos como seres humanos.
"O homem é um aprendiz, a dor é a sua mestra, / E ninguém se conhece enquanto não sofreu", frase de Alfred de Musset, sim, um romântico. E eu, que sempre tive certa aversão ao romantismo, agora recorro à ele... ironicamente.

Hoje li partes de livros diferentes. O principal deles, de cunho espiritualista, me ensinou que para tudo há hora, há tempo para plantar e tempo para colher (não era Eclesiastes, apesar de minha paráfrase).  O outro texto relembrou a história contada por Aristófanes em "O Banquete": éramos seres de duas cabeças, quatro braços e quatro pernas que, egocêntricos, nos esquecemos de louvar aos deuses e fomos derradeiramente castigados por Zeus, que nos cortou ao meio. Daí a explicação de nossa incessante busca pela completude no "outro". Assim, concluí a mensagem... 

Queria só isso mesmo. A exposição de todo um pensamento fragmentado que, inexplicavelmente, é costurado e amarrado.

Doida.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Down

 Um risco de tristeza...

 A pior parte é que eu havia me apegado a todos eles...

 ...

segunda-feira, dezembro 13, 2010


Desejo dos Perpétuos

O personagem mais emblemático da mitologia moderna, na minha singela opinião, é Sandman dos Perpétuos. Também conhecido como Morpheus. Ou Oneiros.  Porém, mesmo gostando tanto dele, me peguei refletindo sobre Desejo. 
Somos seres que desejam a todo momento, e talvez seja nosso maior problema, pois é por desejar tanto que nos sentimos insatisfeitos e incompletos. Agora mesmo desejo. Hoje ainda desejarei, e amanhã, e nos dias posteriores. Faz parte de nossa natureza, assim como também sonhamos, nos desesperamos, deliramos, destruímos, morremos.
Mas Desejo possui duas facetas, e isto é que é mais intrigante. Ela /ele nos impulsiona para que atinjamos certos objetivos, mas nunca nos deixa completamente satisfeitos. Insatisfeitos, incompletos. Mesmo no romance gráfico, aparece sempre com aquele ar andrógino, com seu olhar enigmático, sua postura de soberba.
Desejo nunca desiste, invade até mesmo o território dos outros Perpétuos. Cria armadilhas, nos confunde e, na maioria das vezes, nos aprisiona em seus domínios. O Limiar de Desejo.

O ponteiro dos minutos gritando aqui. Preciso ir. Numa outra hora volto à ela/ele. (Desculpem, hoje eu estou correndo contra o tempo).

terça-feira, dezembro 07, 2010

Pensamentos Flutuantes

Pensamentos Flutuantes


27/11/2010

Abaixo, muito abaixo de mim
vejo desenhos de curvas, pontos indefinidos
que podem ser enormes edifícios ou quadras
de condomínios
Mas daqui reduzem-se a pontos,
simples e, aparentemente, insignificantes.
Vejo formas diversas pintadas
com todos os tons de verde e marrom
Vejo as sombras das nuvens,
que daqui de cima parecem mais fofas e brancas.
Há momentos/lugares em que elas formam um oceano branco,
que cega a vista de quem se encanta e se consome
em sua infinitude.
O horizonte, antes uma linha bem traçada,
agora apresenta um quê de áurea e as cores
variam entre o azul celeste, o branco e o róseo.

(Escrito antes daquela linda aterrissagem, daqueles lindos lábios e daquela noite inesquecível)

terça-feira, novembro 16, 2010

Pequenos grãos de areia

Foi chegada a hora de lançar as chamas presas por dentro dela, antes que explodisse. Aquela era a sua vez de poder soprar para longe toda a sujeira que via e sentia desde que o acontecido se sucedeu. Lembrou-se de cada detalhe dos momentos extenuantes do passado e das cenas promissoras do presente. E, assim como as estrelas, que somente piscavam naquela noite, aguardaria seu interior silenciar.  Não adiantaria muito agir com tanto fogo e lava vulcânica querendo sair pelas ventas. Era melhor esperar, aguardar, saborear as notícias que seriam trazidas pelo tempo. E assim, depois de alguns goles de seu anestesiante preferido, sentou-se perto da fogueira. 
Avistou, ao longe, uma enorme árvore. Pensou sobre tudo o que aquela sábia sequóia já presenciara. Quanto tempo se passou desde que fora cultivada, quantas guerras já não teriam começado e terminado. Quantas vidas nasceram, quantas mortes e amores, e desenlaces, e vitórias e derrotas.
Mais um ano se passara e mais ela tinha visto, sentido, experimentado. Agora sabia que não deveria parar, que o fluxo era contínuo, que agora o que mais importava era seguir a estrada. Acreditava e via que nada havia de errado com ela, mas talvez com o mundo. Onde estariam as pessoas que o salvariam? Uma hora tudo acabaria, a única certeza da vida, porém, seria imbecil demais concordar com a inércia e a ignorância. Não importavam mais os tantos que insistiam invadir sua mente com as falsas promessas, daria um adeus a todos eles, que procurassem outras mentes cansadas e torturadas para converter. A sua estava tranquila, pacífica como uma ilha perdida no meio do oceano, virgem.
Um oceano, não encontraria metáfora melhor para expressar a infinitude do tempo e da própria experiência de estar viva. Flutuava em seu barco pressentindo as tempestades que viriam, e quando estas se dissipavam, sentia a brisa e o sol acariciando sua pele molhada, salgada. Logo as ondas estariam tão calmas que poderiam trazer boas novas, mensagens dentro de garrafas, esperanças. Ou então, o contrário, súplicas jogadas ao mar por pessoas que não entendiam o porquê, que não aguentavam as tormentas, que por vezes desistiam da descoberta.
E ela refletiu, o tempo continuará ecoando, mesmo que haja tantas e tantas tempestades, não há nada a fazer a não ser persistir ou desistir. Entregar-se às ondas violentas, esmagadoras, ou então agarrar-se ao barco ou ao que sobrar dele. E, ao longe, quando as areias ficarem visíveis, voltaremos a ser crianças, ingênuas, riremos e nos lançaremos aos simples prazeres, sem condenações ou medos.
Abriu seus olhos e o fogo já havia se apagado. Agora somente as cinzas daquilo que havia sido.

segunda-feira, novembro 15, 2010

Perto da retrospectiva

Lembrete

Mais um ciclo se fecha, entre janeiro e dezembro. Na lista de comemorações, muitas amizades conquistadas, beijos roubados e permitidos, noites indescritíveis - pelo alto teor pornográfico? - congratulações pelo trabalho realizado, shows assistidos, enfim, puxa... quanta coisa boa! Também posso citar algumas experiências nada agradáveis, situações broxantes - literal e metaforicamente - falta de reconhecimento do trabalho realizado e decepções/frustrações - leia-se: traições de amigos antes considerados intocáveis.
Para um ano que prometia muitas emoções, desde o primeiro dia, realmente este foi um dos que ficarão na memória, sem dúvida alguma! Queria poder agradecer a algumas pessoas, e espero poder valer a todos, todos. E nesse espaço acredito que poderei expressar minha gratidão com mais eloquência. Agradeço a Edilaine, uma pessoa iluminada que me deu forças para segurar uma barra muito pesada no trabalho. Parabéns por ser assim, tão generosa! Agradeço também Odair, um cara que, talvez, não consiga descrever. Quisera eu poder, como ele, degustar da vida, conseguir ter a mesma destreza no trabalho e a mesma alegria de espírito! Agradeço minha mais nova companheira de baladas Vivien, uma das minhas conquistas deste ano, por ser tão leve e inteligente, é  uma bênção contar com suas opiniões e reflexões. Suas experiências e sua áurea tranquilizam e sua autenticidade faz esquecer essa sociedade cheia de (falsas) aparências. Agradeço a classe do 9o. ano. Todos eles, adolescentes que me fizeram crer tanto em mim mesma quanto nos outros. Pequenos mestres. Agradeço também todos os homens com quem me relacionei este ano, de alguma forma vocês foram professores para mim. 
Agradeço a Deus. Estou em busca, perseguindo-O, e sei que este ano foi um presente Seu. Espero poder enxergá-lO cada vez com maior nitidez. Obrigada.

Este é só um lembrete. Saber agradecer é uma virtude!

sábado, setembro 04, 2010

A Vida Acontece

     A vida acontece a cada parada inesperada numa rua desconhecida. Acontece a cada palavra dirigida a um estranho, a cada olhar em direção ao sol (especialmente quando está nascendo), a cada música que em questão de minutos leva você a outros lugares e épocas. A vida acontece também quando, presenciando uma cena delicada - como um casal de pombos se acariciando - você não consegue segurar uma lágrima que escorre pelo canto do rosto (pois pode estar deitado no chão, de frente para uma árvore cuja sombra acolhe e refresca).

     A vida acontece mesmo que você se recuse a aceitar o fato. Mesmo quando, ao adormecer, pensa que será um milagre se sobreviver ao dia seguinte. E será mesmo! A vida acontece quando, ao acordar, mesmo sem pronunciar palavra, lá no fundo agradece por essa nova chance. Acontece a cada vez que você põe seus pés no chão, a cada sorriso que oferece e que lhe é oferecido (principalmente quando é o sorriso de um bebê de poucos meses).

     A vida acontece sem que você perceba também, no horizonte inalcançável, no piscar dos olhos, no passo rápido de um gato, no balançar dos galhos, nos primeiros raios de sol e nas primeiras gotas de chuva.

     Se você tem alguém para chamar de "meu amor", a vida acontece a cada beijo, mas também a cada discussão. A cada vez que se abraçam e seus corações batem lado a lado, quase juntos. A cada vez que seus corpos se unem, a cada respiração ofegante.

     Caso não tenha esse alguém, a vida acontece a cada risada na roda de amigos e a cada suspiro dado por causa da solidão. Acontece toda vez que conhece uma pessoa interessante, a cada vez que você aproveita, do seu jeito, a liberdade incondicional que possui. A cada viagem que faz para conhecer a pessoa mais interessante de todas (você, lógico!).

     É inevitável. Além de tudo isso (e muito, muito mais), a vida acontece a cada emoção sentida, a cada passo dado, a cada segundo vivido. E não há como negar: a vida é mesmo um instante, um momento no universo; porém, o momento mais gigantescamente valioso!

quarta-feira, agosto 11, 2010

1984 e o Domingo

"Acima de tudo, era o que ele desejava ouvir. Não somente o amor de uma pessoa, mas o instinto animal, o desejo simples, indiscriminado; era a força que faria a derrocada do Partido. Apertou-a contra o chão, esmagando campânulas. Desta vez não houve empecilhos. Dentro de algum instantes, o ofegar do peito de ambos voltou ao normal, e com um agradável torpor, permaneceram imóveis. O sol parecia ter esquentado mais. Ambos tinham sono. Ele puxou o macacão abandonado e cobriu-a um pouco. Quase imediatamente caíram no sono e dormiram cerca de meia hora.

Winston acordou primeiro. Sentou-se e ficou contemplando a face sardenta, ainda adormecida, apoiada na palma da mão. Com exceção da boca, Júlia não podia ser considerada bonita. Olhando-se de perto, descobria-se uma ruga ou duas perto dos olhos. O cabelo escuro e curto era extraordinariamente espesso e macio. Winston raciocinou que ainda não sabia todo o nome dela, e onde morava.

Aquele corpo jovem e forte, agora completamente desprotegido, provocou nele uma sensação de pena, e proteção.Mas não voltou de todo a ternura física, orgânica, que sentira sob a aveleira, enquanto cantava o tordo. Puxou o macacão de lado e observou a pele branca e macia. Antigamente, pensou ele, um homem olhava um corpo de mulher, via que era desejável e pronto. Mas agora não era possível ter amor puro, ou pura lascívia. Não havia mais emoção pura; estava tudo misturado com medo e ódio. A união fora uma batalha, o clímax uma vitória. Era um golpe desferido no Partido. Era um ato político." George Orwell, que bem poderia ter escrito esse trecho depois de um Domingo qualquer.

domingo, julho 04, 2010

A Estrada

 Num final de tarde, uma festa. A expectativa era de que fosse encontrar alguém em meio à multidão que o fizesse sentir-se vivo e importante, então acelerava com vontade, ouvindo o motor rosnando como um animal. Ligou o rádio para distrair-se e levantar seu astral um pouco mais, e um rock n' roll conhecido tomou conta do seu corpo e de sua mente. Agora seguia confiante e naquela noite, quem sabe, teria alguma diversão.

Ao chegar no local, não conseguia estacionar o possante. Muitos já haviam chegado horas antes, e nenhuma vaga sequer havia sobrado por perto. Os que apareciam naquele horário também acompanhavam uma romaria em busca de um único espaço em meio à aglomeração de automóveis. Não haveria outro jeito: teria que andar um pouco mais para chegar à festa, pois o único lugar que havia encontrado estava a mais ou menos quinhentos metros de distância. Mas ele estava bem vestido, usava seu melhor perfume e, especialmente naquele momento, se sentia poderoso.

A festa já estava lotada. Uma ânsia por ver gente conhecida se apoderou dele, cujos olhos investigavam milimetricamente cada canto da chácara em busca de um outro olhar, de um sorriso. Entretanto, até ali nada o alegrava. Parecia que aquela noite seria de espera e de procura, duas palavras que, em seu vocabulário, quase não possuíam importância. Na verdade, era sempre ele quem era esperado e procurado, não fazia sentido algum que a situação tivesse se invertido.

Uma hora se passara desde o momento em que pusera os pés na terra batida daquela chácara. Já não estava animado, sentia o coração disparado em seu peito e as mãos gélidas, sinal de que o nervosismo e a ansiedade já o haviam alcançado. Uma hora depois um conhecido parou ao seu lado e travava, casualmente, uma conversa com ele, outros passeavam em meio à festa, exibiam uma tranquilidade digna de anjos assexuados. Ele não. Queria sentir-se vivo, e não era o que ocorria, pelo contrário, parecia que naquele lugar as únicas cores eram o branco, o preto e o cinza. As músicas não passavam de ruídos, as pessoas, simples vultos. 

Resolvera sair à francesa. Agora seguiria rumo à casa de uma amiga com quem teria alguma diversão, pelo menos sempre conseguia algo quando precisava. O motor roncava, agora mais furioso. A música, mais alta. Outros veículos pareciam competir com o dele numa velocidade incompatível ao limite de velocidade. Já estava chegando, enfim. A casa, sempre com suas luzes acesas, agora se encontrava em meio a uma escuridão intimidadora. Não poderia ser, mas sim. Não havia ninguém, ou ela poderia estar dormindo; resolveu tocar a campainha. Uma voz também conhecida atendeu, e perguntado sobre a dona da casa, respondera que ela não estava ali.

Mais uma vez, entrou no carro. Agora seus pés adquiriram um peso extraordinário, e o acelerador era sua vítima. O motor, colérico, rangia como os dentes de seu motorista. A estrada agora era sua companhia, única. Ela o entendia, ela sabia o que se passava ali dentro dele. As faixas passavam tão rapidamente que pareciam contínuas, indicando-lhe o caminho de casa. O rádio estava ligado, mas a única música que ouvia era a de seu motor, juntamente com o bater de seu coração, já cansado de tanta falta de sorte. Pareciam ritmados, o motor, o coração. Ele mesmo se sentia parte do automóvel, como se fossem um único ser, que corria pela estrada em busca de libertação. Uma curva apareceu para uní-los e, ao contorná-la, por um momento o motor e o coração pararam para ouvir o gritar dos pneus. Agora nada mais importava, nem a companhia, nem as roupas, nem o perfume. Só a estrada poderia saber.

sábado, junho 26, 2010

Uma manhã, uma tarde e uma noite

Uma manhã, uma tarde e uma noite

Marília já acordava correndo. O despertador gritava em cima do criado-mudo, sem dó. Ela sonhava que cavalgava em um cavalo preto, altivo, e o vento que bagunçava seus cachos da cor do sol era o mesmo que refrescava sua pele que, inexplicavelmente, ardia em brasas, sem que ela sentisse qualquer dor. Ao contrário, a sensação era de prazer e felicidade, pelo menos até o som estridente do relógio fazê-la acordar sobressaltada. Seu coração disparava assim como os segundos, que movimentavam o ponteirinho menor com sua urgência e rapidez.

O cobertor estava na temperatura certa, mas o dia apenas começava. Lembrou-se de seu superior, o quanto estava agitado nas últimas semanas, cobrando por resultados. A pressão psicológica de Nunes a atingia em cheio, e por mais que se esforçasse, nada era bom o suficiente. A cada dia uma nova cobrança, uma nova necessidade. E os negócios não iam nada mal: a curva do balanço mostrava que as vendas cresciam. Marília desejava descansar numa praia, levar seu companheiro Max para correr e pular as ondas... era seu melhor amigo, e assim que percebeu que ela acordara, não hesitou por momento algum em saltar na cama e, com aquela alegria própria, demonstrar-lhe suas expectativas, pois para ele seria um dia fabuloso!

Depois de abraçar Max com entusiasmo, afinal, qualquer coração gelado se desfaleceria na companhia daquele lindo e feliz labrador, Marília segue em direção ao banheiro e, mesmo a contragosto, se livra de sua roupa de dormir. As primeiras gotas do chuveiro descem como agulhas de gelo, ferindo sua pele que, até aquele momento, estava quente. Em alguns minutos seus pensamentos tomam sua atenção por completo: tudo o que teria que ser feito até a hora do almoço, como sempre, Marília retomava, ponto a ponto, em sua mente. Ao terminar o banho já se sentia sobrecarregada. Mas tinha um cargo, ganhava por ele, independentemente de Nunes, de Renata - a grande puxa-saco da agência - e de qualquer outro colega de trabalho, ela ainda agradecia por tê-lo.

Pão com geléia para ela, ração para Max. Suco para ela, água para Max. Chaves do carro para ela, a solidão para Max.

Ao trocar a marcha e pisar no acelerador, Marília já se sentia em seu lugar, seguiria sua rotina. O celular toca, só tem tempo de verificar quem seria o ser que ligava àquele horário. Nunes. Aquele seria mais um dia cheio, e teria problemas...

sexta-feira, junho 25, 2010

O Bater das Asas da Borboleta - O Caos e os Vômitos

Às vezes tenho a impressão de que sou um alvo fácil das desumanidades. Há sempre algum problema ou alguém que cria um problema para a minha cabeça! Como diriam meus alunos, "fala sério"!

Há décadas atrás (tempo que passa cada vez mais rápido), quase nada me atormentava. Seriam problemas tão pequenos que não mereciam tanta atenção, ou eu havia desenvolvido uma capa de proteção aos pensamentos insistentes que levam ao desânimo? Ou seriam as responsabilidades que crescem feito bolo de mãe ... humm... como era fácil a vida daquela pequena ruivinha sardenta, que ocupava sua mente com quadrinhos do Walt Disney e comia bolo de cenoura com granulado por cima sem se preocupar com o dia seguinte ou com as calorias do bolo... 

Sou muito tranquila, me sinto feliz e abençoada. Mas quanto mais me sinto livre e em paz, mais problemas aparecem, do nada, sem explicação. Não sei se acontece com mais gente, mas é só eu começar a elogiar uma pessoa para ela me decepcionar, é só me sentir segura em relação a algo para que esse algo entre em turbulência. Talvez seja um teste: vamos ver até onde ela aguenta segurar aquele sorriso, até quando ela vai distribuir tantos pensamentos encorajadores... mais uma vez recorro à sabedoria de meus alunos: "tenso!"

Aprendi,  nesses últimos tempos, a ser muito mais paciente. Quero compartilhar isso aqui, hoje. A paciência é uma dádiva, pois a paz que tanto se busca não é encontrada sem muita espera. Nós somos seres que esperam. Esperamos 4 anos para torcer para o Brasil na Copa (ah, obrigada pessoal do 3o ano pelas risadas e pelo churrasco de hoje!), esperamos por 9 meses aquele serzinho(a) que mudará por completo a nossa vida, esperamos pelo vestibular, na fila do banco, na fila do caixa de supermercado, esperamos o tempo que for para encontrar a nossa cara-metade, esperamos até pela morte... 

Há como esperar sem paciência? De maneira alguma. Mas tem muita gente impaciente por aí. E o pior, um problema pessoal (gerado, muitas vezes, pela impaciência) pode acabar criando problemas coletivos. É a teoria do caos funcionando aqui: uma pessoa acorda de mal humor numa bela manhã ensolarada, levanta-se e segue sua rotina matinal como se cada passo ou cada palavra se transformasse num martírio, um castigo. Chega no trabalho e escolhe (consciente ou inconscientemente) algum inocente que deverá pagar pelo pato. Na primeira chance que tiver, o mal humor em pessoa fará tremer a terra e os céus caírem na cabeça desse bendito ser que, sabe-se lá, acordou feliz naquela manhã, pensando numa forma de fazer seu ambiente de trabalho tornar-se cada vez mais agradável.

Reação em cadeia: o ser Pollyana  em questão poderá perder a vontade de tornar o mundo mais cor-de-rosa e voltar-se contra os seus colegas de trabalho, criar situações constrangedoras. Poderá ser uma pedra no sapato de todo mundo. Tudo porque alguém não cultivou a paciência e não procurou solucionar seus problemas interiores antes de vomitar palavras rudes e cruéis em cima dos outros. E quem é que limpa toda essa sujeirada?

Enfim... sou paciente. Espero pela solução dos problemas, mas aprendi isso a duras penas. As borboletas batem as asas na Ásia e os ventos acabam formando furacões na América, não é? Não sei, mas um pouco de gentileza ou de atenção no trato com seres humanos pode mudar o dia de alguém, disso tenho certeza. Eu desejo que todos vocês possam desfrutar da paz interior, e isso pode ser difícil quando lidamos com brutamontes ou com cobras sibilantes que se arrastam e mordem pelas costas. 

Ai, coitadinha da menininha ruiva... se ela soubesse o que iria enfrentar mais à frente...